Por Carolina Cavalcanti Pedrosa

Escrevo, pois sem escrever não vivo. Clarice disse isso? Não sei, pode ser. Dizem que a maioria das frases a ela atribuídas não são dela, então vá lá, foi Clarice.

Escrevo sim, mas leio também, estudo, acompanho, compartilho, me conecto com palavras saídas de outras mãos, outros corações. Afinal, nada vem do nada… (Shakespeare?)

2020 não foi um ano comum. Nenhum é, cada ano traz a magia de ser único, mas esse ano chegou bradando, chacoalhando certezas e nos mostrando quem a gente é de fato, como pessoas e comunidade.

Porém, como tudo no belo equilíbrio da vida, apesar das incertezas, da sombra da morte sobrevoando com mais ferocidade do que o normal, foi um ano que trouxe sim coisas boas. Talvez menos do que esperávamos, talvez com maior dificuldade, mas com certeza nos ajudou a enxergar o que realmente é essencial.

Falava no plural, mas como esse texto vai ficar mais pessoal, vou mudar para primeira pessoa.

Uma das maiores dificuldades que eu tenho é com ciclos. Acho que a maioria de nós tem. Aceitar términos e saber quando seguir em frente é uma das lições mais importantes que precisamos aprender. Porque eles se findam sem nossa interferência, acabam e começam no seu próprio tempo e cabe a nós aceitar e entender ou sofrer resistindo.

Então, se fosse traduzir 2020 em uma palavra eu diria: ciclos. Em todas as suas acepções: de trabalho, amorosos, amizade, internos, objetivos e planos. Esses, por sinal, viraram de ponta cabeça.

E tudo bem! A estrada nunca é linear e calma, percalços fazem parte do caminho, assim como quedas, recomeços. E mesmo que as decisões sejam solitárias, porque somos nós quem devemos fazê-las, sempre encontraremos pelo caminho aqueles que estarão dispostos a trilhar conosco, criar e crescer.

Chego aqui no Igor e no Laboratório Poético. Se tem algo que eu sempre fiz, mas em 2020 tenho feito mais, é enaltecer pessoas incríveis que cruzam o meu caminho e trazem com elas luz, poesia e beleza. Que trazem um olhar sobre a vida que faz valer a pena existir.

Isso que significa para mim, e arrisco dizer para tantos outros, esse movimento poético que nos aproximou de nós mesmos, dos poetas de outrora e principalmente de cada um que se permitiu fazer parte desse movimento. Virtualmente, mas de coração. Longe, mas perto. Sozinhos, mas juntos. Só tenho a agradecer ao Igor por ser este agente transformador. Por emprestar seus óculos de poesia para nós, e assim começar um redemoinho.

Porque basta uma pedra, não é Drummond, uma pedra no caminho para nos parar ou impulsionar. Basta uma faísca para que peguemos fogo. Basta um ventinho para que um redemoinho vire tudo de pernas para o ar (para quem não gostava tanto de rimas, até que fiz uma).

Então, olho para trás, para esse ano turbulento e louco, cheio de nuances e cores e posso dizer sem medo que foi um ano difícil, mas foi um ano inesquecível. Nele, aprendi a ver para além de mim e enxergar o que de belo há no espelho e principalmente, no outro. Aprendi a cuidar do que realmente é essencial, e a aproveitar cada dia como se fosse o último.

Se 2020 foi um ano de ciclos, que 2021 seja um ano de gratidão, de agradecer por tudo o que passou e usar os aprendizados para sermos cada vez mais verdadeiros e conectados.

Um final de ano de luz a todos nós.

*Para ler mais colunas da nossa Carol acesse: Cartas de Carolina