Entrevista com o Poeta e Acadêmico Antonio Cicero

Por Igor Calazans

Eternizado por suas obras literárias e grandes sucessos musicais que atravessam gerações e públicos, Antonio Cicero há três anos também alcançou a imortalidade acadêmica, quando foi eleito para ocupar a cadeira n.27 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Eduardo Portella. Filósofo, crítico literário e artista multifacetado, Cicero é um dos intelectuais mais reconhecidos do país, tornando-se uma “joia” que faltava para que ABL, na busca de modernização, se aproximasse da sociedade, garantindo um canal entre os cânones da erudição e o gosto popular, de linguagem simples e coloquial. Como disse o também poeta acadêmico, Domício Proença Filho, presidente da entidade na época, “Cicero é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea”.

Portanto, ao sentirmos que um verdadeiro imortal pode sim estar entre nós, faz com que acreditamos no poder, não só da poesia como expressão artística, mas na reflexão cotidiana das nossas possibilidades enquanto seres normais. Por essas e por outras, conseguir algumas palavras sobre poesia com Antonio Cicero é um privilégio e uma honra para o Recanto do Poeta. Veja, abaixo, algumas questões abordadas em um bate-papo informal que tive com o grande poeta.

Diálogos: Igor Calazans e Antonio Cicero

-Antonio Cicero, qual é a sua opinião sobre a importância da ABL para a sociedade brasileira na atualidade? Como aproximar a poesia na vida das pessoas?

– Igor, é importante que haja uma instituição – e, sobretudo, uma instituição que não dependa nem do governo nem de empresas privadas – que, como se lê no primeiro estatuto da ABL, elaborado na época de Machado de Assis, tenha por fim, em primeiro lugar, “a cultura da língua e da literatura nacional”. É importante também fazermos com que a a poesia esteja mais próxima da educação. A poesia canônica, por exemplo, deve ser lida nas escolas, desde o primário.

– Você, assim como muitos escritores, começou pela poesia, não é mesmo? Dentre as suas principais referências, quais até hoje são importantes na sua expressão poética?

– Foram inúmeras, de vários países e línguas. Citarei apenas cinco, da língua portuguesa: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Eugénio de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Sophia de Mello Breyner Andresen.

– E, por curiosidade, o que você está lendo no momento?

– Estou lendo o livro “Capital e ideologia”, do Thomas Piketty. (Economista francês reconhecido mundialmente por suas pesquisas sobre economia da desigualdade e redistribuição da renda)

– Existe uma eterna discussão em relação à poesia, poema e composições de letras musicais. Você é um grande mestre de todas essas expressões. Como um compositor de diversos sucessos da MPB, qual a sua opinião sobre isso: letras de músicas são consideradas poemas?

– Sim, claro que são. Basta dizer que os poemas do primeiro poeta europeu conhecido, Homero, eram cantados – e cantados por ele mesmo. Hoje seria absurdo não reconhecer que Caetano Veloso e Chico Buarque – para citar apenas dois compositores – são grandes poetas.

– Outra questão muito colocada em relação à nossa literatura é a falta de um vencedor do Prêmio Nobel. Já estivemos próximos de indicações com  João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar e, mais recentemente, Manoel de Barros.  Quem você acha que poderia ser o primeiro brasileiro a ganhar um Nobel de Literatura?

– Muitos podem, mas por que não um desses dois que citei antes: Caetano Veloso ou Chico Buarque?

– Que enorme prazer encontrá-lo, querido poeta. Uma honra para mim. Ah, só para fechar, de uma maneira simples: como você definiria a poesia em sua vida?

– A poesia são as asas da minha vida, que me elevam sobre o mar imenso e a terra inteira, num voo leve. Um forte abraço, Igor.

“Vida, valeu.
Não te repetirei jamais.”

Poema “Valeu” – Antonio Cicero