Maria Helena Nascimento nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1961. Poeta, escritora, autora de telenovelas e produtora de cinema, tem vários trabalhos reconhecidos como a de roteirista da série Confissões de Adolescente e colaborações em novela como Pátria Minha, Paraíso Tropical e Celebridade. Estreou na literatura em 1992, com o livro de poemas “Gasolina Azul”. Depois publicou o romance “Olhos Baixos”, de 2007 e, mais recentemente, escreveu sua segunda obra poética, “Cobaia”, de 2023.
Place des Vosges
Minha bicicleta sobe e desce escadas mas não anda direito na rua. Vai
me levar ao café de todos, uma parada para fotos, uma volta
rápida, não duas, porque deixou fios soltos em alguns endereços.
É bonito e duro o destino de estar eternamente dentro
de um táxi para o aeroporto apertando a tua mão.
4 de fevereiro
Eu quis a maldição, agora não sei quem me livre
o arrependimento é inócuo e não cola não cobre não resolve
e de fato não me arrependo, apenas me dobro à dor
sai para chorar enquanto as coisas estavam no fogo
a cadeira de rodinhas em seu trajeto
suas pernas até as minhas
o fôlego das coisas no fogo
a rosa desta falta aberta à força
a faca de abrir ostras sobre o prato
*
Se o que você quer é verdade
procure na voz, não nas palavras
vozes traem estrangulamentos
arranhões de medo
e espraiam avenidas largas
de música e alegria
vozes, antes dos olhos, antes dos nomes.
*
Baldes de líquidos para amaciar a garganta
o rosto de criança atrás da fumaça
Márcia reclama da culpa de fumar aqui em casa
falamos de outros estrangulamentos
de situações em que a voz se recusa inteiramente
(enquanto organizo a represa: a mesa entre
o cabelo comprido cobrindo o o olho
e as xícaras de café vazias)
não vou deixar escorregar o elo
e num estalo macio surgir um sentido súbito
controlo a dose do segredo.
*Poemas do livro “cobaia”, Editora Sete Letras, 2023.