Pedro Prado Calvo nasceu em Santiago do Chile, no dia 8 de outubro de 1886. Poeta, romancista, pintor, arquiteto e diplomata, foi um dos principais nomes de sua geração na poesia chilena. Vencedor do Prêmio Nacional de Literatura do Chile em 1949, Prado começou a escrever poesia em 1908, com o livro “Flores de cardo”, no qual rompia com o molde da rima métrica e marcou a introdução do verso livre em seu país. Já em 1912, com “A casa abandonada” introduziu a poesia em prosa , rompendo com a tradição da poesia versificada. Porém, também escreveu sonetos métricos, utilizando conceitos do parnasianismo e do simbolismo. Pedro Prado faleceu no dia 31 de janeiro de 1952, em Viña del Mar, Chile.

OS PÁSSAROS ERRANTES

Era nos tons cinzentos de fins do outono, nos solitários
arquipélagos do sul.
Eu estava com os silenciosos pescadores que, no breve crepúsculo,
elevam as velas remendadas e transparentes.
Trabalhávamos calados, porque a tarde entrava em nós e
na água entumecida.
Nuvens de púrpura passavam, como os grandes peixes,
sob a quilha do nosso barco.
E as velas túrgidas da balandra eram como as asas de uma
ave grande e tranquila que cruzam, sem ruído, o crepúsculo
vermelho.
Eu estava com os taciturnos pescadores que vagam pela
noite e velam um bando de pássaros.
Nós íamos até eles e eles vinham até nós.
Quando começaram a cruzar sobre nossos mastros, ouvimos
suas vozes e vimos seus olhos brilhantes que, de passagem,
nos dirigiam um breve olhar.
Ritmicamente voavam e voavam uns atrás dos outros, fugindo
do inverno, até os mares e as terras do norte. A peregrinação
interminável, lançado seus breves e rudos cantos,
cruzava, num arco sonoro, de um a outro horizonte.
Insensivelmente, a noite que chegava ia fazendo, do mar e
do céu, uma coisa só, da balandra e de nós mesmos.
Perdidos na sombra, escutávamos o canto dos invisíveis
pássaros errantes.
Nenhum deles via mais o seu companheiro, nenhum deles
via nada mais no ar negro e sem fundo.
Folhas à mercê do vento, a noite os dispersaria.
Mas não; a noite, que faz de todas as coisas uma disforme
escuridão, nada podia sobre eles.
Os pássaros incansáveis voavam cantando, e se o voo os
levava para longe, o canto os mantinha unidos.
Durante toda a fria e longa noite do outono passou o bando
inesgotável das aves do mar.
Entretanto, na balandra, como pássaros perdidos, os corações
dos pescadores batiam as asas de inquietude e de desejo.
Inconsciente, temeroso, levado pela febre e seguro do meu
dever para com meus taciturnos companheiros, de pé sobre a
borda, uni minha voz ao coro de pássaros errantes.

A ALEGRIA

Não é primavera, nem a manhã.
Não andei pelo campo, nem o amor me fez companhia.
Não pretendo que se realize uma esperança, nem espero
nenhuma satisfação.
Estou tranquilo vivendo minha inconsciência como se estivesse
dormido num lago que se sonha.
Mas eis que brota das águas uma claridade nascente.
A claridade se faz maior e sorrio.
Sorrio para a luz que brota das águas.
Chega, assim, uma alegria pura.
Uma alegria sem causa que vaga como fogo-fátuo.
Ninguém sabe o gozo que esta alegria me proporciona.
Ela não nasce para consolar, ela não vem prometer.
Está desligada de tudo como uma chama, no ar suspensa.
Uma chama que não consome nenhum tronco, não aquece
a nenhum peregrino.
Ela só ilumina e ilumina…

QUANDO A AURORA SURGE PELO ORIENTE

Quando a aurora surge pelo Oriente
acende a selagem pelo Poente.
A tarde, que se extingue se afasta,
no lugar da aurora se reflete.

Surge o Amor, o coração nos preenche,
e toda a juventude se angustia;
e a plena maturidade que já declina,
renovada e erguida, se ilumina.

Matinas da madrugada plena,
ángelus no final da jornada,
oh! Nuvens de tristeza e de alegria!

Entre vocês, prisioneiro do dia,
amanhece constante, e seu amor pensa,
a vida toda é uma tarde imensa.

COMO SE FOSSE O DONO DA CASA

Como se fosse o dono da casa,
despeço cada um dos meus velhos amigos:
adeus! adeus! e cada sombra passa,
e eu fico na solidão! ninguém fica comigo!

Passeando pela terra, minha morada,
que habita indiferença e seu desvio,
levanto do meu passo, a estrelada
altura da noite, meu eco.

Assim vou cruzando a solidão das pessoas,
despeço ao próprio corpo vazio.
Adeus! Adeus! Te digo, vou sofrendo

ainda posso te falar; depois eu me calo,
não há ninguém para te despedir. Adeus, irmão!
Minha mão está aberta na despedida!…

*Poemas do livro “Pedro Prado & Guilherme de Almeida”, Biblioteca da Academia Brasileira de Letras, 2013.
Tradução de Clice Nunes.