Flávia Souza Lima nasceu em Volta Redonda, Rio de Janeiro, em 1972. Poeta, jornalista, produtora cultural e agente artística, é membro da Academia Volta-redondense de Letras (AVL), desde 2022. Com passagens como jornalista em redação (O Dia) e televisão (TVE/Rede Brasil), dedica-se há mais de duas décadas a criar projetos pela Planetário Produções Culturais, empresa que dirige. Atualmente está à frente do podcast Chiado, no qual apresenta conversas sobre música, literatura e artes com a participação de convidados especiais, e também do canal “Prosa Poética”, no YouTube. É autora do livros: “Sobre-viver” (1989), “O avesso do grão” (1991), “Caixa vermelha” / “Caixa preta” (2009), “Desjeitos – alguma poesia”; (2022 /Numa Editora) e “Borda – mais alguma poesia (2025 / Numa Editora).
ARRISQUE ESSA PALAVRA
Como se risca um fósforo
como se comete um fim
como se a vida volátil se dissipasse
como brincadeira
como se tivesse graça
uma cabeça de vento
fazer deste amor poeira
e de meu nome, fumaça
INTERMARES
a pele da água eriçava-me
ao menor vento
a minha arrepiava-se
ao mínimo alento
diante daquele mar
mais escuro que claro
mais marrom que verde
mais seu que meu
diante daquele céu
mais nublado que limpo
mais cinza que azul
mais seu que meu
não é menos imenso
bordar o mar
que dançar
na borda de um olhar
castanho como aquela água
luminoso como aquela praia
confortável como aquele abraço
inavegável destino
inalcançável porto
inadvertido desejo
mais meu que seu
MEIA-GARRAFA
sexta-feira
dez da noite
somente uma
responde ao garçom
sete passos depois
pendura a bolsa
nas costas da cadeira
vazia à sua frente
num restaurante de shopping
não fosse isso
deprimente o suficiente
na música ambiente
uma cantora da moda
se contorce para
cantar ‘feelings’
e o vinho que você quer
está em falta
assim como quem
você deseja
PARTILHA
só podia ser delírio
um queijo chamado
morro azul
escorrendo pelos seus dedos
colando nos meus
passeando pelas bocas
e revelações
pelos olhares
e predileções
pra matar a fominha
da primeira noite
carnavalzinho antecipado
dancinha na cozinha
vai saber, vida
por que
a gente acredita
que tanto encanto
não é pista falsa
quando deixa apenas
estrondoso silêncio
e
um tupperware
vazio
PINHOLE (FURO DE ALFINETE)
uma caixa de fósforos
um pote de biscoitos
uma lata de leite
tanto faz, desde que
embebidos em tinta preta
a cirúrgica intenção
de perfurar a superfície
importa mais do que
a forma improvisada
para ser câmera
ao vencer o ínfimo orifício
a luz preenche o interior escuro
com o mundo de fora
incide num degradê qual realidade
além de preto além de branco
o leve desfoque sugere
: nitidezes estão por chegar
revelar-se-ão no carnaval
qual promessas raras
e lentas maravilhas
coisas que imaginamos como
farol ainda antes de acendê-las
ou fixá-las pelo olho-lente
esse permanente papel fotográfico
que volta e meia nos mente
corrosiva e holograficamente
ESCAPE
além daquela vidraça
flutuava a varanda
com vista deitada
sobre a musse marinha
lambida de vento
na tela da tarde
sob céu espumoso
a luz exata
de domingo chuvoso
escurecendo
aceso naquela parte do Atlântico
onde a água é benta
e a mulher, ilha
bela
inesperado monumento
seja ela
remoto mar
ou maremoto.
*Poemas do livro “Borda”, Numa editora, 2025.