Luís Filipe Carrilho de Castro Mendes nasceu em Idanha-a-Nova, Portugal, a 21 de novembro de 1950. Poeta, escritor e diplomata, foi ministro da Cultura do XXI Governo Constitucional de Portugal de abril de 2016 a outubro de 2018. Estreou na poesia aos 15 anos, em 1965, ao publicar poemas no suplemento juvenil do Diário de Lisboa e no suplemento literário do diário República. Sua obra é caracterizada pelo virtuosismo no tratamento de formas poéticas tradicionais e a intertextualidade. Desde 2022, é sócio correspondente da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa (1.ª Secção – Literatura e Estudos Literários).
PASSAGEM DE NÍVEL ABANDONADA
Dom de poesia. Quando a angústia
dura entre cancelas
e estavas. Desabitada oficina.
Agora fecha os olhos, ficciona
o rumor do dia.
Serenamente se transfigura o rosto,
como se viajasse
ainda.
SAUDADE OU QUE NOME?
Qualquer coisa consoladora como <<uma saudade calma>>,
mas não, não ainda, o tempo tornou-se baço
e de repente falta-nos um sentido, o sul,
apenas vagueamos, algumas tardes, logo o crepúsculo.
Qualquer coisa nos fez suster
o curso dos dias, a memória surda.
O acaso pôs-nos frente a uma imagem esbatida,
demasiado tênue para ser nossa, contudo
vamo-nos apercebendo do seu durar, insensivelmente
penetra em nós como uma música,
inventa
os seus limites.
Obstinadamente digo do que dura – mas o poema,
baço, crestada língua de areia,
paisagem desmaiada.
LUZ
Como se enreda na luz o coração
à sombra dos seus mitos e de corpos
tão jovens que já de apercebidos
se movem para longe do nosso olhar
guardando a tábua rasa da ausência.
Como se enreda o coração no corpo
e sem palavras te abandona este poema
e sem razões te alucina e te aprisiona.
Como nos perdemos todos nesta luz
que os corpos trazem como coisa sua
e que só às vezes pousa no poema
e te deixa perdido e só à beira lume.
GESTOS
Gestos,
apenas gestos. A minuciosa ternura
posta nas coisas imediatas,
nas que duram contra a noite,
nas que acendem lâmpadas precárias
e contêm o silêncio, o silêncio,
como se música fossem
e nela nós viéssemos
perder.
Gestos,
tu ouves?
Nem o teu coração pode dar guarida
a tanto silêncio da terra.
Se agora mesmo devagar nos anoitecesse
e se, mergulhados numa aguda nostalgia
ou na recordação de um rosto,
nos desencontrássemos do mundo,
só esse gesto viria resgatar-nos,
a nós, feridos de amor e de sentido.
Por isso, hoje só posso dizer
o que o teu coração abandonou.
POEMA
A falta de ti.
O coração procura o mais fundo da terra.
O mar e a infância tecem
uma aliança acerada contra
a vida. A vida imediata.
Só o teu riso dura. Mostrei-te para o mar.
Mostrei-to antes e depois de morreres.
A ILHA DOS MORTOS
Nunca, entre tanta serenidade,
poderia pousar uma crispação, uma recusa
ou um brusco estremecimento do coração
desmedido. Não conhecer a paixão
é o privilégio dos mortos. Entre a mão
e a barca,
entre o silêncio e a aridez,
entre a claridade
e o tremor
caem as sombras sobre a água como
a roupa se desprende e cai do corpo desejado,
entrevisto,
como de tanto amor se tece a Morte!
EVERY POEM IS AN EPITAPH
Desfiz meu corpo nas vivas marés
que os versos me traziam. Solidão
mil vezes retomada, sombra e pó,
palavras que nos doem mais de perto:
tudo desfez no meu corpo e neste mar
um navegante encontra o seu deserto.
*Poemas do livro “Poesia Reunida – 1985 / 1999”, Topbooks, 2001.