SOBRE A IDEIA

– “O que é uma ideia? É uma imagem que se grava em meu cérebro. Todos os seus pensamentos são, portanto, imagens? Certamente. De fato, as ideias mais abstratas não passam de consequências de todos os objetos que percebi. Só pronuncio a palavra ser em geral, porque conheci seres particulares. Pronuncio a palavra infinito, porque vi limites e porque recuo esses limites em meu entendimento tanto quanto possível; certamente só tenho ideias porque tenho imagens na cabeça.”

SOBRE A IMAGINAÇÃO

– “A imaginação é o poder que cada ser sensível sente em si para representar em seu cérebro as coisas sensíveis. Essa faculdade é dependente da memória. Homens, animais, jardins são percebidos: essas percepções entram pelos sentidos; a memória as retém; a imaginação as compõe.”

– “Os animais têm imaginação como nós; prova é que nosso cão caça em seus sonhos.”

– “Nada chega ao entendimento sem uma imagem. Para adquirir essa ideia tão confusa de um espaço infinito, é necessário ter tido a imagem de um espaço de alguns metros. Para ter a ideia de Deus, é necessário que a imagem de algo mais poderoso que nós tenha remexido nosso cérebro.”

– “Nenhuma ideia, nenhuma imagem é criada; desafio pensar o contrário. Não fazemos nenhuma imagem, nós reunimos as imagens, as combinamos (…) Aquele que recolhe mais imagens no armazém da memória é o que tem mais imaginação.”

SOBRE A CERTEZA

– “Toda certeza que não é uma demonstração matemática não passa de uma simples probabilidade; não há outra certeza histórica.

SOBRE A REALIDADE

– “Parece que seria necessário estar fora de si para negar que os estômagos sejam feitos para digerir, os olhos para ver, os ouvidos para ouvir. Por outro lado, é necessário ter um estranho amor às causas finais para afirmar que a pedra foi feita para construir casas e que os bichos-da-seda nasceram na China para que possamos ter cetim na Europa.”

SOBRE O HOMEM

– “Para conhecer a física da espécie humana, é necessário ler as obras de anatomia, os artigos do Dicionário enciclopédico de Venel ou, antes, fazer um curso de anatomia. Para conhecer o homem que denominamos moral, é necessário sobretudo ter vivido e ter refletido.”

– “Já vimos que a raça humana tem apenas cerca de vinte e dois anos para viver, contando aqueles que morrem no regaço de suas amas e aqueles que arrastam até cem anos os restos de uma vida imbecil e miserável.”

– “O que um cão deve a um cão e um cavalo deve um cavalo? Nada. Nenhum animal depende de seu semelhante, mas o homem, visto que recebeu o raio da divindade chamado razão, qual é o fruto disso? O de ser escravo em quase toda a terra.”

SOBRE O FANATISMO

– “O fanatismo é para a superstição o que o delírio para a febre, o que a raiva é para a cólera. Aquele que tem êxtases, visões, que toma os sonhos como realidades, e suas imaginações como profecias, é um entusiasta; aquele que alimenta sua loucura com o assassinato é um fanático.”

SOBRE A ALMA

– “É um termo vago, indeterminado, que exprime um princípio desconhecido de efeitos conhecidos, que sentimos em nós. A palavra alma corresponde à anima dos latinos, ao pneuma dos gregos, ao termo de que se serviram todas as nações para exprimir o que não entendiam melhor do que nós.”

SOBRE OS LITERATOS

– “Em nossos tempos bárbaros, quando os francos, os germânicos, os lombardos, os moçárabes espanhóis não sabiam ler nem escrever, foram instituídas escolas, universidades, compostas quase todas por eclesiásticos que, sabendo apenas sua língua, ensinaram essa língua a quem quisesse aprendê-la; só muito tempo depois surgiram as academias; elas desprezaram as tolices das escolas, mas nem sempre ousaram levantar-se contra elas, porque há tolices que são respeitadas, desde que se refiram a coisas respeitáveis.”

– “Os homens de letras que prestaram mais serviços ao reduzido número de seres pensantes espalhados pelo mundo são os letrados isolados, os verdadeiros sábios encerrados em seus gabinetes, que não argumentaram nos bancos das universidades nem disseram coisas pela metade nas academias; e esses foram quase todos perseguidos. Nossa miserável espécie é feita de tal maneira que aqueles que seguem por caminhos já batidos sempre atiram pedras contra aqueles que ensinam um caminho novo.”

SOBRE A FILOSOFIA

– “Imagino uma dúzia de bons filósofos numa ilha, onde sempre viram somente vegetais. Essa ilha, e sobretudo doze bons filósofos, são muito difíceis de encontrar; mas, enfim, essa ficção é permitida. Eles admiram essa vida que circula nas fibras das plantas, que parece se perder e em seguida se renovar; e, não sabendo muito bem como as plantas nascem, como tomam seu alimento e como crescem, chamam isso uma alma vegetativa”.

– “Filósofo, amante da sabedoria, ou seja, da verdade. Todos os filósofos tiveram esse duplo caráter; não houve nenhum na Antiguidade que não tenha dado exemplos de virtude aos homens e lições de verdades morais.’

– “Um dia é suficiente para um sábio conhecer os deveres do homem.”

SOBRE O BEM

– “A antiguidade discutiu muito sobre o bem supremo. Teria sido a mesma coisa que perguntar o que é o supremo azul, o supremo manjar, o supremo andar, o supremo ler, etc. Cada um põe seu bem onde puder e dele tem, à sua maneira, tanto quanto puder.”

SOBRE A BELEZA

– “Interroguem o diabo; dirá que o belo é um par de chifres, quatro garras e uma cauda.”

SOBRE A CONFISSÃO

– “Constitui-se ainda num problema saber se a confissão, a menos que seja considerada como questão política, tem feito mais bem que mal.”

– “O bem que a confissão trouxe é o de ter algumas vezes obtido restituições dos pequenos ladrões. O mal que trouxe é o de ter forçado algumas vezes, nas convulsões dos Estados, os penitentes a serem rebeldes e sanguinários, ficando com a consciência em paz.”

SOBRE A INQUISIÇÃO

– “A inquisição é, como se sabe, uma invenção admirável e totalmente cristã para tornar o papa e os monges mais poderosos e para tornar hipócrita todo um reino.”