Pequenas Grandezas

Tudo era tão grande
E agora que ficou maior
Até parece aconchegante…

Esgarça o que estava contraída,
Abrange, por menor o seu alcance,
E cresce até perder de vista
A distância encolhida que se expande.

Detalhes das pequenas minorias
Escolhidas por medidas limitantes
Deixam espaçar por quem se alinha
A tamanhos que não bastam ser bastantes.

Tudo conforme se assimila:
O tempo e suas variantes
Abrem a melhor perspectiva
E ampliam em outras vias quase unânimes

Pouco mais do que se mostra e apropria
Uma infinda vontade de ver longe
As lacunas em alturas recaídas
Encontradas sem saídas por quem some.

Impressão

Eu me mato de sol.
Tenho impressões sobre as pedras.
Vivo nos metros ao chão.
Estou prestes a sentir saudade.
Veja com seus próprio olhos
o mundo de quem chega à beira.
Joga uma pedra no céu,
e espera que a queda devolva.

Telúrica

Nós estragamos a essência das coisas
ao tentar perfumá-las.

Como se fosse sobrenatural
a força da natureza.

Como se só existisse ar
onde se respira,

e o cheiro do que morre
mudasse a direção do vento.

Enquanto extraímos o que se espalha,
tudo o que há de nascer
perderá a validade.

Pedaços no Vazio

É muito espinho,
pouca experiência
para salta às pedras
e encontrar os pés tomados.

É qualquer coisa,
para tanto sacrifício.

Mas é disso que se trata,
quando falamos em destino.

A casta assume as pegadas,
a trilha de ventos sobe às nuvens.
E o tempo, quando reage?
Se é dele a tontura do espaço.

Como rememorar o ímpeto
sem revelar as coincidências?

É nessa hora que as distâncias pelos ares
cortam correntes no vazio
e algo despedaçado atinge o seu lugar partido.

Micro-Rito de Paragem

Jogar para ver onde bate.
Tirar para saber o que fica.
Tocar mais perto e
Sentir o que falta.
Gesticular para quem alcança.
E acompanhar…quase parando…
Até não perder mais.

A Sós

No mesmo barco,
mas em oceanos diferentes.

No mesmo mar,
mas contra as correntezas.

Na mesma gota
(eu doce, você salgada).

No mesmo sonho,
mas em camas separadas.

No mesmo carma,
por vidas e vidas passadas.

No mesmo dia,
a sós, nada mais tarda:

você, à plena noite,
eu, quase madrugada…

Nós mesmos,
no mesmo lugar…

Era só o que faltava.

 

O Que Queres Homem?

Se queres matar a fome de um homem,
Se queres matar de um homem a fome,
Se queres matar um homem de fome,
Se queres matar a fome e o homem,
Se queres matar o homem e a fome,
Se queres matar tua fome de um homem,
Se queres matar um homem com tua fome,
Se queres matar…
Podes matar.
Dá tua fome ao homem.
Tira o homem da fome.
Faz um homem ter fome.
Come com a fome de homem.
Sê o homem.
Ou mata
A fome
Como se matam
Os homens.
Se queres matar a fome de um homem,
Dá-lhe comida… e uma faca.
Se queres matar um homem de fome,
Nega-lhe tudo, até implorar por migalhas
E repita a todos os seus nomes:
O que queres, Homem?
O que queres, Homem?

Onde Posso Deixar as Minhas Coisas?

Como fugir da palavra
“achismo”?

Quanta gente ainda
nos causa espécie?

Quem nos permite
dizer o que quiser?

Onde posso deixar
as minhas coisas?

Por que nunca lembro
do rosto fantástico que sonhei?

Cada pessoa
tem de fazer por onde…

E. em todo mundo,
não há quem alimente
quem já nasceu desenganado.

Quanta línguas falamos
num mesmo idioma?

Quem disseminou
o indizível?

Em quantos anos
a vida acaba de vez?

Quem duvida
de que temos uma dívida
com os detalhes?

Quem garante
que, subitamente,
trocaremos de face com a terra?

Onde fica a parte
que me cabe
da outra
que me toca?

Nada disso desce bem:

A convulsão da manhã,
a dissidência do parto,
a ignorância do inimigo.

Dentro dos corpos,
as escoriações alastram
sem perigo algum.

Como fugir das abstrações
de um monstro sujeito
à própria sorte?

Como digerir o último dia
sem coibir os embaraços?

Quem despista os olhos
com uma chave de segurança?

Criadores da guerra,
ouçam as suas guerrilhas…

Onde a dor de cabeça
brinca com fogo,
e visões odiosas inauguram
uma noite de angústia.

É indiferente
ainda estarmos aqui?

Quem se despede
com as cartas na manga?

A morte é o único medo
que mata.

Boca, Saliva, Dentes e Lâminas

Cordas e guilhotinas
falam muito mais
da língua
do que do pescoço.

Desdobra-se na boca
a brumosa saliva,
nos dentes serrilhados
da lâmina,
nas gengivas ensanguentadas
dos banguelas…

Cuspa
para fora desse corpo
o que pertence às ideias.

Assunção Plena da Condição de Perda

O poeta não sabe por onde anda,
mas não para. Tampouco sabe
por que anda, ou para quem está indo.
Mas isso não importa: segue. O poeta,
à frente do caminho, chega antes mesmo
de prever onde está – e reconhece o lugar perdido
como ponto de encontro.

*Poemas do livro “Excessos que Faltavam”, Editora Casa Philos, 2026.

SOBRE O AUTOR:Igor Calazans Abreu, nascido em Niterói-RJ, em 1986, é poeta, escritor, jornalista, professor e produtor cultural. Um dos nomes mais ativos da cena literária carioca, é editor de RecantodoPoeta.com , curador dos saraus Epoché, Ode ao Poeta, Roda de Poesia e Criação Verbal. “Excessos que Faltavam” é o seu sexto livro publicado, quinto de poemas. Suas poesias já foram traduzidas e publicadas para diversas idiomas, como curdo e persa. Em 2022 recebeu, da Câmara Municipal de Niterói, a Medalha José Cândido de Carvalho, por sua obra e realizações artísticas.