Natalie Diaz nasceu em 4 de setembro de 1978, na aldeia indígena de Fort Mojave, em Needles, Califórnia, Estados Unidos. Ela é Mojave e membro registrada da comunidade indígena Gila River. Poeta, professora, ativista linguista e ex-atleta profissional de basquete, venceu o Prêmio Pulitzer em 2020, com a coletânea “Poemas de Amor Pós-Colonial”. Entre suas outras honrarias e prêmios estão o Prêmio Nimrod/Hardman Pablo Neruda de Poesia, a Bolsa de Poesia Louis Untermeyer da Bread Loaf, o Prêmio de Poesia Narrativa e uma Bolsa Literária Lannan. Diaz vive atualmente no Vale Mojave, Arizona, onde trabalhou com os últimos falantes da língua Mojave e dirigiu um programa de revitalização linguística.
Meu irmão, minha ferida
Ele chamava os touros da rua.
Eles vieram como um rio escuro,
uma enchente de peito e casco.
Tudo movendo-se, por baixo, estilhaço. Prendeu
seus chifres através das paredes. A luz zumbia
os furos como vespas. Minha boca
era um ninho abandonado.
Então, ele estava na mesa.
Então, nas mandíbulas do porco.
Ele não estava com fome. Estava parado.
Ele era uma maçã podre. Estava engasgando.
Então eu soquei meus punhos contra seu estômago.
Marte voou para fora
e espatifou ou floresceu.
Há quantos olhinhos vermelhos fechados naquela casca?
Ele disse. Vejam, Veja. E eles viram.
Ele disse, Erga a camisa. E eu ergui.
Ele deslizou o garfo entre minhas costelas.
Sim, ele cantava. Uma ferida no lado de Jesus.
Não parava de sangrar.
Ele alcançou lá dentro
e ligou a lâmpada.
Eu nunca soube que também era uma lâmpada, até a luz
cair de mim, escorrer pela minha coxa,
voar dentro de mim, prender na minha garganta como um canário.
Canário na verdade significa cão, ele disse.
Ele calçou os sapatos.
Você começou isso com a sua boca, apontou.
Aonde você vai? perguntei.
Passear na roda-gigante, ele respondeu,
e escalou para dentro de mim como se eu fosse uma janela.
*
Eu assisti a uma cascavel nadar no rio Colorado,
perto do Cotovelo do Diabo, onde o monstro do mar,
cujo nome não posso te contar, transformou a montanha em areia –
criou uma curva de 90 graus no curso azul esverdeado da água.
*
Sonho com cobras que desejam falar comigo.
Cubro meus ouvidos, corro.
Pulei na carroceria de uma caminhonete vermelha.
A cobra ficou em pé sobre a cauda, humana.
Ela falou com sua língua preta como um lampejo
de cabelo preto ao vento.
Ela falou comigo com aquela língua,
fazendo todos aqueles nós pretos no ar.
Cintura e balanço
Eu nunca quis quebrar –
mas as luzes da rua a vestiam de ouro.
A curva e a curva de seus ombros –
seu zumbido e sua colmeia,
sua luz do luar, sua picota –
quase me fizeram cair de joelhos.
Como posso dizer – seu âmbar.
O corpo de mel – eu o peguei nas mãos.
Oh, cidade – onde mãos tornaram-se sacras –
a cidade dela, onde minhas mãos foram desfeitas –
foram às ruínas, à silhueta, às mariposas à mercê
da palidez de seus quadris. Ancas no cair da noite
para deixar acesa – raio encanto elétrico,
cintila e reluz – onde ansiava beber
eu bebia até ficar bêbada.
Onde nela balançava a escura Zikmund –
ela, então, uma torre de abadia.
Um seio, uma janela rosa.
Um seio, sala de alquimistas.
De onde dela veio um badalar –
a canção de jugo e coroa,
de cintura e balanço.
Desejá-la era tão próximo da prece –
eu não deveria. Mas era julho,
e em uma cidade onde desejos significam. Lá em cima
nós podemos nos abrir uma à outra,
a única benção que precisei dar foi Boca –
então dar e dar eu fiz.
Toda noite tem uma mulher para tentação.
toda cidade tem uma fabula para fruta –
como nos jardins do castelo, onde gralhas esperavam
com os olhos vidrados nas paredes em busca de um novo sabor –
de figos ainda sem açúcar, mas com aquele brilho de berllo
o suficiente para atiçar.
Nem gralhas, mas nem tão diferente assim, eu – como destruo a mim mesma
até pela menos doce das coisas mais doces –
o sal dela queimou há não muito tempo em minha língua,
mas como estrelas.
Eu nunca quis quebrar – mas amar,
o hino e os sinos dela.
Mesmo agora, há noite em que subo a escada estreita
em um apartamento na Praça Hradčanské, onde uma porta se abre
para um quarto e o figo assombreado em sua boca –
doce e aberto, tocando em mim.
*Poemas do livro “Poema de Amor Pós-Colonial”, Editora Círculo de Poemas, 2022.
Tradução de Rubens Akira Kuana