Safiya Sinclair nasceu em Montego Bay, Jamaica, em 1984. Poeta e memorialista, sua coleção de estreia de poesia, “Canibal”, ganhou vários prêmios, incluindo o Prêmio Whiting de poesia em 2016 e o Prêmio OCM Bocas de Literatura Caribenha de poesia em 2017. Ela é atualmente professora associada de escrita criativa na Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos.
LAR
Será que esqueci –
o dialeto das conchas selvagens,
o apóstrofe negro e
encaracolado preso na minha língua?
Ou como os espanhóis ergueram muros
com cacos de vidro para me deixar de fora
mas o beija-flor continuou a me seguir
e observar: este lugar
é o seu lugar, coberto por algas vermelhas,
antigas madeiras flutuantes à deriva
nutridos pelo mar melancólico.
O alta decrépito no qual estive
tantas vezes, cheias de crânio de peixe,
brilhantes como plumas de guaiacum:
Pai, já lhe pedi milagres de tantos
tipos. Ser paciente e tolerante,
ser remodelada para o senhor em
alguma diminuta maravilha. E
que deleite é ainda crer em algo.
Minha fala está tão desenrolada
quanto meu cabelo; aquele estranho que
há tanto tempo paramos de procurar.
Mas se porventura nossos quase naufragados
corações pudessem responder, eu inclinaria
minha boca em conchinhas mornas
sobre a Terra, e beijaria a sujeira úmida
de casa, sentiria a lama de Bogue
e a pele como uma casca de laranja comprida.
Eu abriria meus ouvidos para a cana-de-açúcar
e para os longos ramos de feijã0-guandu
escalarem. Eu nadaria no mar
ainda vacilando numa moldura soldada,
o mar que de novo e de novo
chama o meu nome.
AMEIXINHA VERMELHA
Crise à noite.
Meu coração é uma ameixinha vermelha
na minha boca. Brilhando
sua chama fraca na escuridão.
Como você, com a mão em meu peito,
abre minha gaiolinha
para me ver queimar, olhos
deslumbrados com os pássaros
que escapam. Minha voz faz subir
balões vermelhos pelo ar. Minhas mãos
encontram um cardeal brilhante sangrando
em sua camisa, meu nome
docemente pronunciado por sua língua.
Cerejeira galopando veloz,
costurando pele quente a pele.
Eu te busco, busco pelas
plumas da escuridão,
desejando ficar, desejando
prender cada hora num pergaminho
para que amanhã eu possa procurar
e encontrar nossas diminutas flores
ainda ali a desabrochar. Deslizo devagar
para a sua luz, deixo minha ameixa
vermelha dentro de sua boca.
Aqui. Entrego a você tudo de mim
nesta xicrinha cor-de-rosa: goles quentes
de capim-limão, de menta jamaicana
do mato. Aqui, na sombra da sala
dessa casa aquecida, um hibisco vermelho
floresce e floresce.
CABELO BOM
Irmã, nada sobrou para nós.
Por aqui, nessas horas vazias, nós ouvimos,
sem escutar voz alguma, as conchas. Nenhuma beleza.
Nossas vidas já emaranhadas na violência de nosso cabelo,
aprendemos a nos sentir indesejadas ante o olhar azul do mar,
sabendo que até o líquen loiro era bem-quisto.
Não nós, que nos penetrávamos e domávamos na aurora,
amaldiçoando cada animal indócil por suas jubas esvoaçantes –
Deus proíba que todo aquele cabelo bom seja desperdiçado.
Cabeleireiro, posso dizer uma verdade ou posso nada dizer;
posso encontrá-lo nas tranças com meu inglês embolado,
moedas com rostos estranhos gravadas na palma da minha mão,
peço para ser remodelada com o cabelo desgrenhado, ou arrastada
pelo couro cabeludo até sua chapinha. O espelho
rouba e rouba. Ali chafurdei e ali esperei, vaidosa;
paguei o preço para observar minhas raízes indóceis espumarem brancas,
o formaldeído de farmácia queimando minha pele.
Por um cabelo bom eu faria qualquer coisa. Pagaria o preço da dignidade,
mandaria virgens à Índia para a colheita diária; seus quilômetros
de cabelos brilhantes vendidos por milhares nas ruas.
Ainda assim, voltamos lá todos os anos com nossas moedas de bronze,
noites inteiras passadas ajoelhadas, nossas orações sussurradas
de orelha a orelha, esperando acordar com cachos macios e desenrolados,
ondas negras partindo fios de mel.
Mas como saberíamos da nossa miséria?
Que os genes bons de nossa mãe só dariam ervas daninhas,
que eu desperdiçaria toda a sorte dela de mulata.
Este cabelo de preto é minha maior aflição.
Tão grosso que segura um lápis.
DEPOIS QUE OS ÚLTIMOS ASTRONAUTAS NOS DEIXARAM, I
O oceano estava em guerra com a gente.
Havia homens no espaço remendando o vazio
entre o aqui e as estrelas cadentes.
Meu coração na mira deles,
nosso telhado de zinco descascado, revelando
soldadinhos espremidos numa caixa de fósforos,
os membros entrelaçados derretidos pelo grande fogo,
o relâmpago do rastafári ainda crepitando em nossos cérebros.
Todas as vezes que o trovão rugia
meu pai berrava o nome de seu deus em resposta,
enquanto nos encolhíamos na audição úmida da noite,
mordiscando a base da incerteza.
Eu observava os patos-arlequim cuidando dos ovos como pérolas,
erguidos e santificados pela fúria do vento. Vi minha mãe
aprender a deixar de amar meu pai, suas malas prontas
como um caranguejo-eremita, impenetrável em sua concha branca.
Meu pai, o vento, uivava.
Todos os cães de rua foram expulsos
das ruas da cidade, e nós éramos parte deles,
chupando, por dias, os ossos de qualquer animal
que o oceano pusesse diante de nós.
Em busca da minha mãe, a astronauta.
O que esmagou as azaleias eu sabia ser a laringe
de Deus. E sabia ser eu mesma um trapo preto preso
eu me via como um trapo negro preso á máquina muda dele,
moldada pelo meu medo cristão. Que se destacava
na ausência dela. A América estava em guerra no deserto.
Eu tinha visto cidades inteiras virarem fumaça numa
miragem noturna, mil anos de história manchados de verde,
como num videogame. E meus irmãos e eu nos agachávamos e esperávamos
pelas bombas, sem esquecermos que também não tínhamos deuses.
Naquela época compartilhávamos sonhos suados entre nós
como se fossem uma tigela quente. Poderia haver esperança,
nossas cabeças como duas metades quebradas de cabeça,
ouvindo vozes antigas, como chuva, enquanto as estrelas prendiam
a respiração, aguardando pelo regresso dela, na sombra de agosto.
Mas era possível se perder em qualquer lugar. Aqui no vilarejo litorâneo
o mundo inteiro nadava bêbado na lagoa do meu umbigo,
as ruas tomadas de vazio depois que os últimos
astronautas nos deixaram, meu pai um leão sem teto
gemendo em silêncio sob um céu de vidro quebrado,
uma palmeira azul encurvada para nos trazer notícias de sua tempestade,
à maneira como o que não está escrito sussurra para si.
*Poemas do livro “Canibal”, Editora Tordesilhas, 2025.