Henrique Marques Samyn nasceu em 1980, no bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro. Poeta, professor e pesquisador, formou-se em Letras e conquistou os títulos de mestre em Filosofia Moderna e em Psicologia Social, além do doutorado em Literatura Comparada. Sua produção acadêmica concentra-se no estudo das poéticas negras e na representação literária de corpos racializados.

Em 2017, idealizou o projeto de extensão LetrasPretas, na UERJ, voltado à investigação e à difusão da literatura e da cultura produzidas por autoras negras e mulheres. Desenvolvido em parceria com estudantes negras e cotistas da universidade, o projeto mantém o blog letraspretas.com, que já reúne mais de duzentas resenhas e ensaios sobre literatura negra feminina, além de um podcast dedicado ao tema.


VENTRE CATIVO

Por amor, estas mulheres
jamais conceberão:
arrancarão as sementes,
uma, duas, vinte vezes –
.      dos ventres, não nasçam vidas
.      fadadas à escravidão.

Por amor, estas mulheres
matarão suas crianças:
que morram ainda inocentes,
que nunca lhes toque o horror –
.       que vivam a breve existência
.       de quem nunca teve senhor.

LUCAS DA FEIRA

O que com as negras fizestes
com vossas mulheres farei:
seu corpo há de ser o campo
em que vingarei meus desejos.

Que, ao virdes o horror, vos lembreis
das negras que à força tomastes:
o maior poder vem do medo,
se o mundo desconhece as leis.

QUILOMBOS

De sobre os nossos ombros
o jugo retiramos:
entre nossos irmãos
erguemos nosso lar.

Deixamos os troncos,
chegamos aos quilombos –
havemos de lutar.

PALMARES

Os olhos brancos, quando contemplam,
não conseguem ocultar o pasmo:
parece, sim, uma pequena África –
embora ali não haja apenas pretos:
compartilhamos nossa liberdade.

Os olhos brancos, trêmulos, estáticos,
fraquejam, mas não podem desviar-se:
é bela, sim, esta pequena África,
nascida sob o nome de Palmares,
que se oferece como um espetáculo.

Não viram, os olhos brancos, a grandeza
desta nação que erguemos, soberana,
na qual pudemos ser livres, um dia;

somente viram sua própria inveja:
pelo ódio cegos, deram-se à vingança –
mais fortes o rancor e a covardia.

SUPLÍCIO

Eu vi o suplício do negro –
o líder dos pretos fugidos:

passou aqui, por esta rua,
nas costas levava um cartaz –
“chefe de quilombo”, dizia;
da infâmia tirava o orgulho,
.     e sorria, sim, sorria.

Altivo, passava entre as gentes,
o corpo ferido, marcado,
e um rastro de sangue deixava;
e olhava nos olhos dos brancos,
.    olhava, sim, olhava.

Sabia o destino traçado –
a fuga, sabia impossível:
a morte entre mil vergastadas;
contudo, brioso marchava,
.     marchava, sim, marchava.

Mas medo – medo ele não tinha.
Olhava bem dentro dos olhos,
olhava bem dentro de nós –
e dentro de nós via o medo.
Altivo, ele olhava.
.                                 E sorria.

TRONCO

Arde o corpo sob o sol:
há quanto tempo ali está,
ninguém sabe – o corpo exposto
aos insetos; sangue escorre
das feridas, como veios
que se fundem com o suor.

Como uma estátua de carne,
brilha, negro, sob o sol –
como uma trêmula estátua
consumida pela dor;
queimada pelo calor
que rasga a pele, inclemente.

Como uma estátua – que vive:
que insiste, ainda, em viver –
fitando, com olhos vazios,
tantos homens que ao seu lado
passam, indiferentes.

*Poemas do livro “Levante”, Editora Jadaíra, 2023.