James William Brown, mais conhecido como Yusef Komunyakaa, nasceu em Bogalusa, Louisiana, Estados Unidos, no dia 29 de abril de 1941. Poeta e professor, leciona na Universidade de Nova York e é membro da Fellowship of Southern Writers. Komunyakaa recebeu o Prêmio Kingsley Tufts de Poesia em 1994, pelo livro Neon Vernacular, e o Prêmio Pulitzer de Poesia no mesmo ano. Ele também foi agraciado com o Prêmio Ruth Lilly de Poesia. Em 2007, Komunyakaa recebeu o Louisiana Writer Award por sua contribuição à poesia.
Poética
Beleza, eu te vi
esmagada contra a vidraça.
Mas a feiura estava irresoluta
no coração & na boca.
Eu vi o artista de traço ágil
agachado entre os crisântemos.
Preciso dizer algo mais?
Nem tudo é armadilha
neste vale. O stri-tease
no palco do Blue Movie
é da sua querida Sara Lee.
Uma discordância dos olhos
atravessada pela metáfora,
& escuto alguém chorando
entre confetes & árvores de cristal.
O saco de ossos na magnólia,
o que é mais verdadeiro que isso?
Antes que você possa ver
suas pernas belas e longas,
olhe em seus olhos sem luz.
Uma canção de respiração si bemol
cambaleia no corredor da morte. Homens
reais, vozes que hesitam
atrás da parede de vidro espelhado.
Eu vi o mendigo sem pernas
abatido em suas quatro rodas.
A música que dói
Guarde essas colheres insípidas.
A parte ventricular do lobo frontal foi pra casa há horas.
A bateria foi chutada
pela escada de incêndio,
& a balada do tenor foi amputada.
A inspiração fez suas malas.
Sua túnica reaparece na porta enevoada
como um dano cerebral; o solo suave de piano dos seus passos
evapora; a memória perde sua língua refinada,
procurando por “meias de seda verde com costuras douradas”
em um prego sobre o espelho do banheiro.
Esta noite durmo em Silêncio,
minha impossível esposa branca.
Método rítmico
Se você estivesse preso em uma caixa
dentro de outra caixa no interior de uma floresta,
sem o canto dos pássaro, sem grilos
roçando as pernas, sem folhas
caindo de galhos manchados,
você ainda ouviria o ritmo
do seu coração. Uma maré vermelha
de peixes encalhados oscila na areia,
copulando sob a lua cheia,
& nós podemos chamar a isso o primeiro
ritmo porque o sexo é o que
fez despertar a língua
& ensinou a mão a tocar
bateria & adotar flautas de bambu
antes de serem feitas
de madeira & mito. Em cima
& embaixo, dentro & fora, o pistão
conduz uma casa dos sonhos. A água
pinga até esculpir uma xícara
em uma laje de pedra.
Primeiro, não maior
que um dedal, que guarda
alegria, mas cresce até medir
o ritmo da solidão
que derrete o açúcar no chá.
Há uma temporada para as cobras
soltarem arco-íris na grama,
para os gafanhotos cantarem no estrume.
Sim, sim, sim, sim
é uma confirmação de que a pele
canta para as mãos. O Mantra
da chuva de primavera abre a rosa
& enreda o lírio na sombra,
& alguém assopra os ossos
até que se levantem & vivam
outra vez. Sabemos que todo o peso
depende de pequenos silêncios
em que nos encaixamos.
Saltos altos no amanhecer
é o mais triste refrão.
Se você consegue ver blues
no oceano, claro & escuro,
consegue sentir as minhocas passando por
um caminho subterrâneo
sob cada passo,
Amor, você pegou o ritmo
Anódino
Eu amor com isso cresce
dentro de um tempo onde é
mantido prisioneiro, onde o deus
da culpa reside. Eu amo
encostas & picos, os caminhos
secretos que me tornam egoísta.
Eu amo meus pés tortos
moldados por vaidade & sapatos
de trabalhos feitos para sobreviverem
às crenças. A rigidez
acumulando leite sem
ganhar forma. Eu amo os lábios,
sal & favo de mel na língua.
Os cabelos adiando a chuva
& a neve. As luas brancas
nas minhas unhas. Eu amo
como tudo implora
por sangue em canção & oração
dentro de um óvulo. Um fantasma
zumbe pelos meus ossos
como a flauta de Pã à meia-noite
forjando leis internas
ao lado de um rio turbulento.
Eu amo esse corpo
feito para resistir à tempestade
no cérebro, resgatado
do cheiro forte
de peixe & aguapé,
do êxtase & do primeiro
arrependimento. Eu amo minhas mãos grandes.
Amo-a nítida até o motor leve
e breve de cada respiração,
os dez tipos de desejo do fígado
& a sanha por açúcar dos rins.
Essa pele, esse saco de esterco
& alegria, esse baço flutuando
como a agulha de uma bússola noite
adentro, sempre prevendo
o horizonte empoeirado da África Ocidental.
Eu amo a marca de nascença
fixada como um galo de briga
na minha omoplata direita.
Eu amo esse corpo, esse
jubileu absurdo & solitário
atrás do mamilo esquerdo,
pois eu sei que nasci
para exaurir pelo menos
uma centena de anjos.
*Poemas do livro “Demência azul e outros poemas de jazz”, Editora Malê, 2025.
Traduções de Eduardo Ferraz Felippe e Thiago Ponce de Moraes