Diuliane de Castilhos, mais conhecida como Diuli de Castilhos, nasceu em Jaquirana, Rio Grande do Sul, em 1996. Poeta, tradutora e revisora, foi finalista do Prêmio Minuano e semifinalista do Prêmio Jabuti, ambos em 2025, com o livro “kitnet de vidro”.
quero que você me leia
mas: mire as escolhas
tudo cabe consequência
não se pode lotar
uma folha em branco
de atos falhos.
colono ápice
sentindo-o escorrer pelos cantos
e empapar-me as amígdalas
pisando sem faixa o mormaço
escorro-me antitética
a ressoar parafusos gelados
garoa pinheiros torneira aberta
escorre avalanche hidrelétrica
fantasia avançar a fronteira lejana
derrubar frágeis totens
arrastar a cada gesto uma
cerca que pretende dar conta
de mim que sou gás
escorro via terra muito
abaixo dos seus palanques
a regar lençóis do mito do rito
sugada por raízes ancestrais
que foram broto muito antes
de eu ser gota
subsumido
ao pé do mormaço trinta e oito
um pequeno submarino mete-se
pela minha vagina
está nele um homúnculo
sucinto ginete do pélago chão
que mal habituado o olhar
queda adesivo à paisagem
abotoa entusiasmado
no painel de mil dedinhos
incitando motores silenciosos
vibram como se atiçassem
o olho dum rio emergente
lúcido engodo
bem a tremedeira firma
a nave diluiu no tecido
líquido da buceta furta-cor
ácidos todos sutilezas
expansões semióticas
o homenzinho sobressalente
nada meu sistema plasmático
sendo minúcias terminações
a mim então desconhecidas
calibradas no tato estrangeiro
atraído pela estática
em rede neurosa
flutua como lépido
numa enorme cama
lençóis de espuma
subindo a ladeira
meus ísquios ariscos
percebam um atrito
subitâneo:
pobre pequenino,
eu o havia esquecido!
com o correr do exercício
em flavescente temperatura
a piririca sugou o bichinho…
foi ele frito, serotonal?
se nele chegar este poema
mandem dizer
que apreciei o bacanal
terça-feira
desço de moletom chinelo e meia
levar o lixo no contêiner
no último degrau em frente ao prédio
escorrego e quase caio
com o lixo do banheiro e tudo
fui salva por uma mão
que firme me segurou
evitando um pé virado
já estava “opa, nossa, muito obr-”
quando olho o dono da mão
e andrew scott da gola padre
pede – em português –
eu sempre fui britânica –
se estou bem doeu muito preciso de ajuda
e- com a camisa dobrada
precisamente sem
ultrapassar o cotovelo –
pega a sacola que rolou longe
me pega no colo fazendo barulho
e aproveita pra dizer que fico linda
quando meu coque se desfaz
de um lado só
miopia
hesita ante cada frase célere demais pra ser contida
conflito sutil desfile cada vez mais digressivo
como se me quisesse afogada em assuntos
dispersa demais pra notar que a voz oscila
as mãos tremem e falamos tão detalhadamente
quais cútis caem bem num paninho de pia
teu medo é eu interromper
pra jogar água na calçada
e espantar passarinhos dos teus pensamentos
já criando ninhos no meu
*Poemas do livro “kitnet de vidro”, Editora Laranja Original, 2024.