Fernando Cabrera nasceu em Montevidéu, Uruguai, em dezembro de 1956. Poeta, músico e compositor, vive em La Paz, Bolívia, desde 1987. Com 15 álbuns lançados em mais de 30 anos de carreira, ganhou vários prêmios, como o “Melhor solista internacional do ano de 2003” – ao lado de Joaquín Sabina e Manu Chao – pela revista Rolling Stone.

MUDANÇA

Retrato de relicário
de alguma tia enterrada
naftalina entre os diários
e uma trança engavetada

O caminhão está à porta
os moleques ‘tão olhando
passa gente que saúda
o meu pai ali saudando

Pelos móveis desmontados
pelos móveis apertados
pelos móveis obrigados
uma lágrima rolava

Ela subiu ao meu rosto
se instalou sem dizer nada
o mesmo que o sangue quando
bochecha ruborizada

O vazio foi crescendo
pelos quartos e banheiro
o silêncio foi tomando
pouco a pouco todo o pátio

Já nas derradeiras caixas
encontrei com meus irmãos
velhas pastas de escola
mil nove quarenta e quatro

Retrato de relicário
de alguma tia enterrada
naftalina entre os diários
em uma trança engavetada.

CRÍTICAS

Tenho a carteira curta
tenho o olhar absorto
em meu interior

tenho um coração apenas
sempre engoli as penas
e o pior

tenho muito pouco amigos
de nada sou testemunha
ouço dizer

minhas canções são fechadas
minhas paixões são erradas
que porvir

não me sobra simpatia
não me falta melancolia
que canto mal

vou alheio por aí
sem patrimônio nem feridas
elementar

poucas vezes dou um mimo
pro esporte não me animo
que cicatriz

tenho a cabeça atada
tenho a mira abalada
que sou feliz.

NUNCA TE DISSE EU TE AMO

Nunca te disse eu te amo
nem mesmo vou te dizer
são palavras que qualquer
um diz com certeza ou sem
nunca te disse eu te amo
mas te amo como nunca amarei

Todas as cercas se opõem
todos os dons apoiam
certos segredos se impõem
certos impulsos arrastam

Vendaval teu abrigo
a teu lado eu sigo
recanto de incredulidade

Espigão banido
feriados de frio
dobrados ao meio.

APARIÇÃO

Quem terá sido o choroso
que por mim terá derramado
eu não estava sob a terra
só me havia afugentado

Estive ausente muito tempo
o que saberemos me terá ido
só peço que minha alma
tenha bendito o esquecido

Hoje voltei e me despejo
do caminho transitado
os carretos que me deram
fama hoje estão desbarrancados.

ACONTECEU

Ia distraído
em minha solidão brincando
a olhar a gente
brincando de ganhar a guerra
do amor paciente
tenho paciência no hospital rezando
inesperadamente
um anjo se detém pra conversar de canto
os faróis quebrados
passaram a dar luzes
vermelhos indiscretos
parece fora rubor do céu

Por favor façam algo
vão embora
ela já está aqui
nos deixem todos

Aconteceu aconteceu
depois de tanto tempo aconteceu
aconteceu aconteceu
depois de andar caindo por tantos precipícios
hoje mesmo aconteceu

Começou o resplendor
agora o sol respira aconteceu
aconteceu aconteceu
agora estou correndo por novos labirintos
festejos do calor

Estávamos atentos à luz
estávamos entrando em um jogo da lua
e nisso aconteceu

Piscou a dor
foi ficando quieto se cansou
adormeceu a dor
agora estamos dentro do fogo do começo
unidos você e eu.

*Poemas do livro “Mudança”, Grua Livro – Coleção Boca a Boca, 2013.
Tradução de Fábio Aristimunho Vargas