Miriam Adelman nasceu em Milwaukee, Winsconsin, Estados Unidos, em 1955. Poeta, escritora, tradutora, pesquisadora e professora. Radicada no Brasil desde 1992, é associada do Programa de Pós-graduação em Sociologia (PGSOCIO) e do Programa de Pós-graduação em Letras (PGLETRAS), ambos da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ao longo dos anos Miriam realizou pesquisas dentro de várias áreas e temáticas da sociologia incluindo gênero, corpo, as mulheres nos esportes equestres, relações humano-animais, a feminilização dos circuitos migratórios, movimentos de contracultura, entre outros. A trajetória de Miriam Adelman é marcada por um processo contínuo de criação de redes entre geografias e pessoas.
Já é hora de
O verão está indo embora
Já é hora de encaixar as coisas, empilhar livros,
Carregar água, seguir em frente. Com tempo,
Talvez, para espreguiçar-se ainda sob o sol veloz, como
O potro de pernas longas, quintal inundado por uma chuva
Repentina, no deleite fugaz desta
Desordem temporária.
O verão chegou ao fim. Hora, então,
De voltar às coisas sérias, aos pratos não lavados
E às contas não fechadas, antes de retomar
Onde tínhamos parado,
Quando o frio começou a filtrar-se,
Quando percebemos que o melhor dos tempos
Fugia num sentido diferente ou
Estava, talvez, virando a esquina.
O desastre
Embora as crianças se agachem na beira da estrada
e se agarrem a fragmentos de pára-brisa, à tampa da
roda ou a um osso do volante, é apenas dentro
de nossos próprios crânios cavernosos
que a memória é mantida: o lugar onde a estrada
deu uma volta inesperada, uma curva acentuada demais
para a direção. Eu continuava falando por toda noite
enquanto você demandava silêncio, um desvio das luzes
intrusas de cada vilarejo por onde passávamos,
enquanto eu desejava sempre
dançar.
Mulher comum
Se eu olhar
ou traçar minha imagem
à luz desse tempo
que tive a sorte ou
o azar de habitar
talvez me descubra apenas
uma mulher comum
com um pé
que se atrapalha
a cada passo,
que chorou pelas batalhas perdidas
antes mesmo delas começarem.
Os filhos vão pro mundo
e o mundo gira sobre a mesma
rota que nos marca como
apenas tão diminutos,
com nossas palavras, um
desenho na areia, ou uma mão
dada. Mas venham, venham sentar
aqui ao meu lado. Sinto o vento
e a noite que não chegou ainda
para nos cobrir com seu desespero
ou sua esperança.
Assia, Oran
Há muitas maneiras de voltar às origens.
Ossos contrabandeados. Um livro sobre exílio escrito.
No véu da noite, tomar as armas ou passar uma cerca
ou cavar um caminho entre pedregulhos, se arrastando rumo
à fronteira não vigiada. Um corpo jogado à beira-mar. Um
rosto coberto.
Um coração falsificado.
Silêncio temporário.
Você pode também descer do avião
direto para os braços do amado.
Mas isso é coisa de filme.
E pode ser que venham te buscar
. ao amanhecer.
Questão de água
Tão felizes ficamos quando chegou
a chuva. Não exatamente a maré
copiosa, mas um vestígio de
mar para este interior quente. Dias
de respirar uma terra inútil. Até
vir a água, enchente, abrupta,
suficiente, então, para transbordar
o rio, partir a velha ponte em
duas, empurrar detritos
corrente abaixo: uma boneca sem braços,
infindáveis plásticos, uma armação de
cama desvertebrada. A água já foi
o que menos angustiava. Agora, você
vê, tudo se tornou tão simples: é
questão de ar, de líquidos ou de
lugar para colocar um pé, uma
mão.
*Poemas do livro “Found In Translation”, Nosotros Editora, 2020.
Tradução de Miriam Adelman