UM ESPETÁCULO INTERROMPIDO
O quanto a civilização está longe de ocasionar os gozos atribuíveis a esse estado! Por exemplo, é de ficar admirado que não exista uma associação, em todas as grandes cidades, entre os sonhadores que aí permanecem para supeditar um jornal que observe os acontecimentos sob a luz própria do sonho. A realidade não passa de um artifício, bom para fixar o intelecto mediano entre as miragens de um fato; mas assenta, por isso mesmo, nalgum entendimento universal: vejamos, portanto, se não há, no ideal, um aspecto necessário, evidente, simples, que sirva como tipo. Quero, apenas para mim, escrever como essa Anedota atingiu o meu olhar de poeta, antes de que a divulguem repórteres treinados pela multidão para atribuir a cada coisa o seu caráter comum.
. O pequeno teatro das PRODIALIDADES havia adjungido a exibição de um primo vivo de Atta Troll ou de Martin ao seu clássico conto de fadas A Bela e a Fera; eu tinha, para agradecer o convite de bilhete duplo ontem desencaminhado para minha casa, pousado o meu chapéu no assento vago ao meu lado; a ausência de um amigo ali testemunhando o gosto comum por evitar espetáculos simplórios daquele gênero. Que se passava à minha frente? Nada, exceto que: de palidez evasivas de musselina, refugiando-se em vinte pedestais de uma arquitetura de Bagdá, saíam um sorriso e braços que se abriam para o peso triste do urso: enquanto o herói, dessas sílfides evocador e seu guardião, um palhaço, na sua alta nudez de prata, troçava do animal com a nossa superioridade. Gozar como a multidão do mito incluído em quem despejar reflexões, ver a ordinária e esplêndida vigília encontrada na ribalta pela minha busca meio adormecida por imaginações ou símbolos. O mais recente dos acidentes!, estranho a muitas reminiscências de semelhantes noites, suscitou a minha atenção: uma das numerosas salvas de palmas concedidas segundo o entusiasmo à ilustração em cena do privilégio autêntico do Homem acabava, quebrada pelo quê?, de cessar repentinamente, com um estrondo fixo de glória no auge, incapaz de se expandir. Todo ouvidos, foi necessário ser todos olhos. Com o gesto do títere, uma palma crispada no ar abrindo os cinco dedos, compreendi que ele captara, o engenhoso!, as simpatias através da aparência de apanhar alguma coisa no seu voo, figura (e nada mais) da facilidade com que toda a gente agarra uma ideia: e que, excitado pelo ligeiro vento, o urso, rítmica e lentamente erguido, examinava essa proeza, uma garra pousada nos galões do ombro humano. Não havia ninguém que não ofegasse, tanto esta situação trazia consequências graves para a honra da raça: que ia acontecer? A outra pata abateu-se, frouxa, contra um braço que ladeava o fato; e vimo-lo, casal unido num secreta aproximação, como um homem inferior, atarracado, bom, de pé sobre o afastamento das duas patas de pelo, abraçar, para nisso aprender os exercícios da fera, e o seu crânio de focinho preto alcançando-o só pela metade, o busto do seu irmão brilhante e sobrenatural: mas que erguia, ele!, com a boca louca de vácuo, uma cabeça medonha movendo através de uma mosca de papel e ouro. Espetáculo claro, mais extenso do que o palco, com esse dom, próprio da arte, de durar muito tempo: para o perfazer, deixei, sem que me ofuscasse a atitude provavelmente fatal assumida pelo mimo depositário do nosso orgulho, brotar tacitamente o discurso interdito ao descendente dos lugares árticos: “Sê bom (era o sentido), e em vez de faltares à caridade, explica-me a virtude dessa atmosfera de esplendor, de poeira e de voz, onde me ensinaste a mover-me. A minha súplica, premente, é justa, à qual tu, numa angústia que é apenas fingida, não pareces saber responder, lançado para as regiões da sabedoria, primogênito subtil!, para te fazer livre, vestido ainda com a permanência informe das cavernas onde fiz recair, na noite das épocas humildes, a minha força latente. Autentiquemos, através deste estreito amplexo, diante da multidão que toma parte neste fim, o pacto da nossa reconciliação.” A ausência de qualquer fôlego unido ao espaço, em que lugar absoluto eu vivia, um dos dramas da história astral elegendo, para aí se produzir, aquele modesto teatro! A multidão desaparecia, por inteiro, no emblema da sua situação espiritual, magnificando a cena: apenas o gás, dispensador moderno do êxtase, com a imparcialidade de uma coisa elementar, nas alturas da sala, prolongava um som luminoso de espera.
. O encanto rompeu-se: foi quando um pedaço de carne, nu, brutal, atirado do intervalo dos cenários, atravessou a minha visão, uns instantes antes da habitual recompensa misteriosa após estas representações. Um trapo a sangrar foi substituído, ao pé do urso, que, com os seus instintos anteriormente redescobertos para uma curiosidade mais alta de que lhe dotava o esplendor teatral, tornou a cair em quatro patas e, como se arrastasse consigo o Silêncio, foi, com o caminhar abafado da espécie, farejar, para lhe aplicar os dentes, essa presa. Um suspiro quase isento de decepção aliviou incompreensivelmente a assembleia: cujos binóculos, em fila, procuraram, aclarando a nitidez das suas lentes, a intepretação do esplêndido imbecil, evaporado no seu medo, mas viram um repasto abjeto que o animal talvez preferisse à mesma coisa que teria precisado de fazer primeiro à nossa imagem para a provar. O pano,
até ali hesitando em aumentar o perigo ou a emoção, abateu subitamente a sua lista de preços e lugares-comuns. Levantei-me, como toda a gente, para ir respirar lá fora, admirado por não ter sentido, também desta vez, o mesmo gênero de impressão que os meus semelhantes, mas sereno: pois a minha forma de ver, apesar de tudo, fora superior, e inclusive a verdadeira.
Stéphane Mallarmé. Publicado na obra “Divagações” (Divagations), originalmente lançada em 1897.
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*Poema em prosa retirado livro “Poemas em Prosa”, Editora Assírio & Alvim, 2022.
Traduzido por Diogo Paiva.