Natasha Felix nasceu em Santos, São Paulo, em 1996. Poeta, performer e curadora, foi assistente de curadoria no MAM Rio entre 2021 e 2022. Foi destaque em ”Literatura e artes plásticas” pela Forbes Under 30 (2019). Participou de diversas publicações impressas e digitais nacionais e internacionais. Dentre as publicações, destaca-se seu livro de estreia, ‘Use o alicate agora’ (Edições Macondo, 2018), a participação em coletâneas como ‘As 29 poetas hoje’ (Companhia das Letras, 2019) e ‘Nossos poemas conjuram e gritam’ (Quelônio, 2019). Seu livro mais recente, Inferninho (2024), foi publicado pelo Círculo de Poemas da editora Fósforo.

A TESOURA DE DERRIDA

com a tesoura corta língua lâmina você
reclama um pouco sente rasgar
a pele seleciona a defesa oferece
mais carne fresca
.                          faz o que quiser de mim
lá fora nenhuma casa nome de rua sequer
está tudo acabado
eles sabem
o segredo do mundo nos seus olhos
brancos dois pequenos planetas
explodindo a ponta
da tesoura escorrendo pelo metal
até que você diz             eu aguento

AS AGULHAS

ando com agulhas nos bolsos
porque tenho medo de esquecer coisas
em lugares.
coisas importantes, coisas
que não me lembro porque
tava ocupada demais esquecendo.
me uno às agulhas
sou amiga delas.

MATERNIDADE

Rocamadour dorme como se não existisse.
pensar em Rocamadour é pensar em escamas de peixe.
quando a Maga pensa escamas de peixe pensa escama
de peixe
se ela pensa Roncamadour, por exemplo, enquanto amola
a faca,
não pensa
Rocamadour é meu filho, isso é uma faca, aquilo é um peixe.
se maga pensa Rocamadour pensa meu peixe
é preciso tirar as escamas do peixe.

A DOMADORA

mariana se tranca no quarto.
pensa em um homem chamado Herberto.
quatro paredes turmalina
parece até mentira.
pensa em selar cavalos subir em um deles
viajar até coyocán galopando
.                         foda-se
todos os noticiários falarão de mariana
mariana a dominadora
montando como ninguém,
o travesseiro entre as coxas.

*
onde não estou me chame Parque das Ruínas,
onde não estou me chame pelo que convém.
onde não estou me chame aquela que deu a outra face.
onde não estou me chame abandono.
onde não estou me chame quem não foi capaz.
onde não estou me chame doce equívoco.
onde não estou me chame vertigem.
onde não estou me chame por todos os nomes
os estranhos nomes que fazem ronda onde não estou
desde o fim me chame à margem do Estácio
que corta nossos segredos pela jugular.

*Poemas do livro “Use o Alicate Agora”, Edições Macondo, 2023.