Francisca Terêza Tenório de Albuquerque nasceu no dia 30 de dezembro de 1949, em Recife, Pernambuco. Poeta, escritora e advogada, fez parte da Geração 65, da literatura pernambucana, ao lado de nomes como Alberto da Cunha Melo, Ângelo Monteiro, Marcus Accioly, Jaci Bezerra e Lucila Nogueira. Publicou oito livros de poesia, entre os quais Poemaceso, vencedor do prêmio de 1986 da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Foi diretora de cultura e eventos da União Brasileira de Escritores de Pernambuco. Ocupou a cadeira 21 da Academia de Letras e Artes do Nordeste. Faleceu no dia  07 de junho de 2020, no Recife.

A GAIVOTA BÊBADA

Dentro dos dias e das noites sinto pulsar teu sangue
na correnteza do rio.
O bronze das catedrais acende a eternidade
em ondas reluzentes sobre nossas cabeças.
Luzes do arco-íris confundem-se nos ásperos relâmpagos
enquanto teu rosto emerge vagarosamente.
Tua voz é os átomos de água
e a nudez explode translúcida
inclinada no vôo de gaivota bêbada de fogo
porque seria um crime contemplar-te
tão bela e animal
e devorar teu mistério
à fronte luminosa.

EM ÉPOCA DE BUÑUEL

É o que nos trazes, amigo:

Uma ilusão de sombras e pássaros
na paisagem desconhecida da Via Láctea.
O Anjo Exterminador no horizonte de pedra
entre as vagas estrelas da ursa.

O clarão passageiro do flash,
a partitura musical,
a perna decepada, embora fosse
o rosto tão lindo.

– Tristana

.             Tristana

.                         Tristanaaaaaaaaaaaa

É o que nos trazes, amigo:

Do sangue mourisco de Espanha
a inspiração irracional
o pensamento não dirigido
a religião evocada
como simples fenômeno de massa.

Perdeste a fé aos quinze anos
porque teu pai e tua mãe eram rígidos
austeros
abastados?

É assim que respondes
à inquietude interior
que te ligava a Lorca
e Dalí?

Com Sèvèrine, à tarde
e seu inútil sentimento de ternura
pela natureza, o amor reencontrado
no partir das carruagens
entre as cores
.                                         dos flamboyants.

POEMA DE DEZEMBRO

Porque somente o tempo em seu retorno
do limiar do círculo ao recomeço
de mim ao som das asas deste pássaro
flutua-me imprimindo ardente selo.

Porque somente a luz da vaga estrela
faz irromper da sombra este soneto
brotando aos poucos, cósmico mistério,
eu navego entre as brumas do meu medo,

ao término de ti, aceso Amor,
exatamente como um Arcanjo bêbado
ressurge sóbrio dentre as mãos de Deus

e paira novamente sobre o inferno
como um Demônio ubíquo cuja imagem
não se erguerá jamais além do espelho.

O KAMIKAZE

Não apenas Ícaro e seu vôo
sobre a agreste costa mas somente
a fixidez dos olhos do herói
a refletir o tempo dos mortos.

Antes o escondessem sob as fluidas
nuvens que envolveram as coníferas
durante o inverno da Noruega
ou nos arrabaldes de Estocolmo.

Talvez haja alguma semelhança
entre as estrelas e o olhar do herói
despedaçado além dos penhascos:

– A certeza do jamais retorno
lá onde não haverá encontros
ou sons remotos quase inaudíveis.

A NATUREZA AMARGA

Aquela foi uma outra madrugada
e mil canções de chuva além da estrada.
Meus cabelos queimavam-se na noite
e a infância me veio qual se fosse
um rosto muito branco na vidraça
que se exauria em pranto e cintilava.

Aquele nosso tempo era o destino
de fauces de leão talvez menino.
Sua comprido língua destilava
veneno e fel e a natureza amarga
dos que se ardem como peregrinos
com suas vestes negras, com seus hinos.

*Poemas do livro “POEMACESO”, Coleção Poesia, Sempre”, Instituto Nacional do Livro, 1984.