Laura Liuzzi nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1985. Poeta, trabalhou com o documentarista Eduardo Coutinho, como assistente de direção, nos filmes Um Dia na Vida, As Canções e Últimas Conversas. Em 2016, foi autora convidada na Festa Literária Internacional de Paraty. Participou da mesa de abertura, sobre Ana Cristina Cesar. Atualmente é responsável pelo núcleo de vídeo do Instituto Moreira Salles.


Vontade

Entrar em casa sem que a porta
rangesse, sem que o cachorro
da vizinha farejasse minha vinda
sem que o sofá conservasse as
formas do meu corpo, sem que
eu precisasse tomar aquele copo
de água que toca o azulejo e emite
um som rouco, sem que houvesse
corpo. Entrar em casa como
a música entra nos ouvidos.

De uma manhã

A praia sob a bruma
na primeira hora de luz
é um Turner improvável.
Não teria esse véu gris
sobre a baía que desperta
plena de certeza e pulmão
se não se ouvissem os bugios
no coração fundo da mata
a sugar a noite sem o mel
do dia, seca e sólida
arranhando a garganta
ancestral que anuncia
que quer nascer, quer nascer.

Retrato de Szymborska

Mesmo com os olhos
semicerrados
nota-se, atrás da nuvem
do cigarro
na leveza dos ombros
e pescoço esguio
na colher que descansa
sobre o pires
na dobra folgada da manga
da camisa nos livros
apoiados sem pressão
na estante e na estante
quase vazia
atrás de si, ela
moça arguta
que sorve o mundo
como quem sorve
por hábito
o café.

Fio sem fim

Chega-se, enfim, à última página
embora deixe claro: não se chega
ao fim. Um mesmo fio fino frágil
mas firme, da mesma fibra de rio
conduz a memória e história: storage
– está estendido para sempre
e para sempre soará, suará
a cada renovação do sol, mesmo
quando atingirmos o final –
mesmo assim não se chegará
ao fim.

*Poemas do livro “Desalinho”, Editora Cosac Naify, 2014.