Antônio Augusto de Lima nasceu em Congonhas de Sabará, atual município de Nova Lima, Minas Gerais, em 5 de abril de 1859. Poeta, jornalista, magistrado, jurista, professor e político, foi governador de Minas Gerais em 1891 (à época, o cargo era denominado presidente do estado), período em que oficializou e defendeu a transferência da capital mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte, então chamada Curral del Rey.
Poeta do movimento parnasiano, integrou a Academia Brasileira de Letras, eleito em fevereiro de 1903, mas tomou posse apenas quatro anos depois, em dezembro de 1907, ocupando a cadeira nº 12. Augusto Lima faleceu no Rio de Janeiro, no dia 22 de abril de 1934.
SÍNTESE
Que importa à natureza o velho tema.
do ser e do não ser – o berço e a tumba,
se alguém folgue ao prazer, se à dor sucumba,
se ria ou chore, se suspire ou gema?
Seio da mãe e entranha de Saturno,
ela alimenta com intenso afeto
tudo que produziu, e por seu turno
devora avidamente o próprio feto.
O trágico problema em vão se agita,
à velha geração sucede a nova,
e a cada nove ser, que à luz palpita,
tece-se um berço, rasga-se uma cova.
E o homem, de um só dia peregrino,
de manhã deixa o berço, mal desperta,
e, ao voltar pela noite – atroz destino! -,
acha o berço ocupado, a cova aberta.
O HOMEM E O MAR
. (BAUDELAIRE)
Homem livre, hás de ser sempre amigo do mar,
o mar é teu espelho, aí vês tua alma ao largo,
os grandes lamarões no infinito rolar:
– nem teu espírito é menos profundo e amargo.
Apraz-te mergulhar em tua própria imagem,
nela imerges o olhar, nadando, e o coração
não raro se distrai da própria agitação
ao rumor dessa queixa indômita e selvagem.
Quão discretos sois vós, quão tenebrosos sois!
Homem, ninguém sondou teus fundos sorvedouros;
mar, ninguém viu jamais teus íntimos tesouros;
tanto sabeis guardar vossos segredos, pois.
E, do Tempo, no entanto, as rápidas torrentes
Vão passando e, sem dó, nem pena vos bateis;
tanto presais a morte e os exícios cruéis,
implacáveis irmãos, eternos combatentes!
ÍCARO
Busco embalde, librado em minha asas,
do espaço o fim num desvario louco:
ao calor de não sei que olhar em brasas,
vão elas derretendo pouco a pouco.
A universal orquestra das esferas
nas orgias da luz retumba em festas,
e o éter inebria as primaveras,
que vêm adormecer pelas florestas.
É possível que, em cima, haja a secreta
chave do enigma místico e profundo,
que nos cerca, e que possa algum planeta
informar-me o que somos neste mundo.
Mas não posso subir! O crânio ardente,
sempre no globo agrilhoado e preso!
– Orgulhosa razão, és importante,
minhas asas de cera, eu vos desprezo.
VOGANDO
Desliza rio abaixo incerta proa:
ninguém a bordo: preso a duro laço,
chora um caído remo ausente braço.
Que porto busca a singular canoa?
Mas eis que além, com rápido fracasso,
um rochedo invisível a abalroa,
e momento após, de espaço a espaço,
fragmentos soltos vão boiando à toa…
Mais infeliz do que o baixel sombrio,
vou eu singrando da existência o rio,
tendo a bordo o cadáver do Passado.
E não achar, como ele, um arrefice
que despedace as tábuas deste esquife,
na corrente sem fim arrebatado!
O CÉTICO
“Percorro da ciência o labirinto
e em tudo encontro um eco duvidoso;
matéria vã, espírito enganoso,
mentes, tudo é mentira, eu só não minto.
Vejo, é verdade, a vida e a vida sinto,
o calórico, a luz, a dor e o gosto,
a natureza em flor, o sol formoso
e o céu das cores da Aliança tinto.
Mas quem, senão eu mesmo, vê tudo isto?
e quem pode afirmar-me que eu existo,
visões celestes, velhas nebulosas?”
E em seu crânio a razão desponta e morre,
como o santelmo fátuo, que discorre
na solidão das minas tenebrosas.
PSICOLOGIA
A um sincero psicólogo moderno,
“qual a sede do afeto?”, perguntei.
“Bem sei que o afeto é um propulsor interno;
. mas onde está, não sei.”
Ao escalpelo, ao bisturi, à sonda,
ao microscópio igual questão foi posta;
e, se alguém esperar que se responda,
. ficará sem resposta.
A um moderno cantor da natureza:
“Onde o afeto reside?” Repeti.
– Pôs a mão sobre o peito com firmeza
. e respondeu-me: “Aqui.”
É que a ciência deduz e o sábio pensa,
iluminados da razão somente;
mas o poeta, em sua vida intensa,
. deduz, cogita e sente…
*Poemas do livro “Poesias”, Coleção Afrânio Peixoto – Academia Brasileira de Letras, 2008.