Marcel Beyer nasceu em 23 de novembro de 1965, em Tailfingen, Württemberg, Alemanha. Poeta, romancista, ensaísta, tradutor e professor, trabalhou como editor da revista literária Konzepte e colaborou com a revista musical Spex. Consolidou-se como um dos mais importantes escritores contemporâneos de língua alemã, sobretudo por seus romances históricos, livros de poesia e ensaios. Ao longo da carreira, recebeu os principais prêmios literários da Alemanha, entre eles o prestigiado Georg Büchner Preis, em 2016. Sua obra explora, com frequência, a memória, a linguagem e os desdobramentos da história alemã e europeia ao longo do século XX.

Pontadas

I

Esta é a minha cabeça, de frente,
de perfil, costurada sob o queixo,
aquela cicatriz como todo mundo
tem, já não sei contar os pontos,

costurados ou grampeados, eu
na ladeira com o trenó – então tarde
demais, hoje no espelho do banheiro

só meu corriqueiro rosto de hotel – os
restolhos, mais escuros de acordo
com a luz, traçando pontos de reflexão.

II

Não sei se puxei meus parentes,
no tocante ao trabalho manual,
pontos gobelin, simples, meio-ponto-
cruz, ousadia em couro caprino,

sim eu conto, tios e tias, calculo,
sim, como se contam estampas,
esta palavra na fita direita e esta outra
na esquerda, um joelho, um suspensório,

ou um sapato, bordado na gáspea
e na lateral, vestes masculinas
estendidas sobre imitações de aberto,
o tecido um pouco sujo, puído,

os percevejos brilham na contraluz,
me enganei, me equivoquei,
motivos com rosas não são meu

forte, todos os dedos vigiados e
dentro de lá, da talagarça, mas nada
ocorreu. Ali cortei a linha com os dentes.

III

A linha quer dizer, versos, esta minha
cabeça. Em janeiro é a camisa,
em fevereiro são os pés. Viena
no frio, ao rés do chão,

Tallinn com o cheiro de madeira
na lembrança. Cosido, grampeado,
malditos pés, quando espero – ponto de táxi –
em frente ao palacete Puchkin.

Nomes

Mas nenhuma destas coisas, que
jazem no crepúsculo: uma torrada,
um caderno de notas, uma noite quer

dizer conversa. O ar entra pesado e
alheio na sua garganta, você
é do clima, é apenas homem de cargas.

Silêncio, o bar Mocca

Silêncio, e gaivotas. Eu arrasto
a perna esquerda, mazelas de
domingo, o tapa-olhos, o
estúdio, luz artificial. Silêncio,
bar Mocca, as gaivotas
no campo e sobre os postes
de luz, os vidros mais pálidos,
a perna direita não. Gaivotas,
o bar fechado, a oficina para olhos
artificiais, na margem do rio
um bando esganiça e muda
sua rota, a mais escura camada.

Olhos escuros

Em certas horas meus olhos se escurecem,
então apresso-me de volta à minha
escuridão, antes que me cheguem
as primeiras palavras: à mesa da pousada
às três da madrugada, algo distinto
tatala na garganta, alguém está deitado
no berço, e seus olhos escuros
encaram o teto, para trás, bem longe.
E ainda mais longe, às três e meia, os olhos
escurecidos: mostarda, a mancha nas telas
de mosquitos, salsichas, ar abafado, sobre
o campo. Em certas horas, instante, vestígio.
O encarar de telefones, à noite, à parte
na poltrona, acalentado, vendo cabos
sendo conectados, esperando, lânguido,
antes que as primeiras palavras surjam, ali,
de volta, com olhos escuros.

*Poemas do livro “Minha voz de tinta – Poemas (1997-2020)”, Edições Jabuticaba, 2024.
Tradução de Douglas Pompeu