Eliana Zandonade, nasceu em Guaçuí, ES, em 4 de dezembro de 1967. Mora em Vitória e é professora da Universidade Federal do Espírito Santo, formada em Matemática e Estatística, com mestrado e doutorado em Estatística. Contadora de histórias para crianças de todas as idades, faz parte do grupo Chão de Letras, de contadores de história. É escritora de livros infantis e já publicou oito livros. Poeta, já participou de uma antologia, no “Prêmio Absurtos 2022”, no livro “Poesia Ativa” e ganhou um prêmio de melhor soneto em parceria com Ive Lima, no concurso “Poesia Lares Errantes”, em 2021, promovido pelo Instituto de Artistas Errantes. Participa do LaB Poético desde janeiro de 2021.
A LENDA DOS PEIXES POETAS
Se não te conto, você não ia acreditar.
Lá bem no meio do Atlântico,
onde o céu encontra o mar,
havia cardume diferente, autêntico.
Brincava e nadava na imensidão,
fazia poesia na completa solidão.
Na verdade, ouvia o canto da sereia,
nos corais encontrava abrigo,
gostava de brincar com o perigo,
escrevia versos na areia.
Tudo começou com Oscar,
um peixinho louco, romântico,
que numa noite de luar
descobriu o universo quântico.
Integrou seu corpo e seu coração,
abriu a boca e, numa canção,
jorrou poesia. Cantou para a aldeia,
falou com o céu e mar como amigo,
do mundo trouxe à tona o mais antigo
verso que acendeu no mar uma clareira
À BEIRA
À beira-mar, gaivotas,
À beira-rio, pedras,
À beira do caminho, flores.
Encontro uma saída pelo mar,
Um barco pelo rio,
Migalhas pelo caminho…
Paro à beira do precipício:
À beira-mar, ondas,
À beira-rio, buracos,
À beira do caminho, lonjuras…
Sou mar, vento e areia;
Sou rio, pedra e canção…
Pelo caminho, sorrio.
PELO CAMINHO DO MAR
Vou pelo caminho da floresta:
encontro espinhos,
escuridão,
trilhas confusas,
barulhos ameaçadores…
Tento retornar e sigo
pelo caminho do mar:
deixo pegadas na areia
com passos silenciosos
para não acordas os peixes.
Procuro a poesia no raso
e no profundo,
enterro segredos do coração.
Na água transparente
semeio pedrinhas de sal…
Oração em lágrimas
por todos que partiram
antes deste lindo pôr do sol.
O BURACO
Às doze horas de um dia de outono,
com o vento suavizando os raios de sol,
cavo com as mãos um buraco
nas areias da praia
Penso em tudo que não sei:
grãos de areia que retiro do buraco
e se transformam em outros tantos
que enchem minhas mãos…
O sol não desiste,
tampouco o vento,
e, eu, imersa no buraco,
busco, na hora derradeira,
cavar, cavar e cavar,
na certeza de um dia
encontrar a poesia
guardada escondida
nas coisas da vida
DEPOIS
Depois que conheci o mar,
molhei os pés,
fitei o infinito,
fiz castelos de areia,
cavei buracos ao sol,
conversei com o vento,
brinquei com as nuvens,
puxei a rede cheia de peixes,
salguei os cabelos,
mergulhei fundo,
Nunca fui a mesma…
Virei peixe, virei mar,
vento, sol, sal, poeta,
aprendi a pescar
e cavar a palavra certa!
ILHA DE PEDRA
Sou a pedra
À beira do caminho,
Imóvel e dura
Ofereço descanso,
Escuto seu pranto
Sou puro silêncio…
Dentro de mim
Há doçura cristalizada,
Sou pedra,
Pareço pedra…
No fundo, sou o próprio
Caminho.
*Poemas do livro “Peixes Poetas”, Zinia Editora, 2025.