Adão Ventura nasceu em Santo Antônio do Itambé,  Minas Gerais, no dia 05 de julho de 1939. Neto de escravizados, mudou-se para Belo Horizonte, onde concluiu seus estudos e formou-se em Direito pela UFMG. Integrou a “Geração Suplemento” e publicou seus primeiros poemas na Revista Literária da universidade. Seu livro de estreia, “Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul” (1970), foi muito bem recebido pela crítica que o associou ao Surrealismo. Em 1973, lecionou Literatura Brasileira Contemporânea na Universidade do Novo México e participou do International Writing Program, nos EUA. Lá, teve contato com a cultura afro-americana, como o jazz, o blues e a luta por direitos civis. Essas vivências marcaram uma nova fase em sua poesia, voltada à identidade negra. Em 1980, lançou “A cor da pele”, com poemas sobre a experiência do homem negro brasileiro. O seu poema “Negro Forro” foi incluído na antologia Os cem melhores poemas do século, organizada por Ítalo Moriconi.

Recusa

– Recusei-me a receber as
divisas do madeiro da cruz,
porque meu nome já estava
escrito nos papiros falsos.
Minhas vestimentas
sobrecarregavam punhais e
outros sinais de desespero.

Recenseamento

Não direi onde recenseei o suor dos
escravos, apesar destes muros
altos de maciças pedras,
porque são áridos os campos
de minha pele.

Cena brasiliense

um vestido preto,
decotado.
cheirando a aids.

uma gangue de rua
chuta o pôr do sol.

Limite

e quando a palavra
apodrece
num corredor
de sílabas ininteligíveis.

e quando a palavra
mofa
num canto-cárcere
do cansaço diário.

e quando a palavra
assume o fosco
ou o incolor da hipocrisia.

e quando a palavra
é fuga
em sua própria armadilha.

e quando a palavra
é furada
em sua própria efígie.

a palavra
sem vestimenta,
nua,
desincorporada.

Origem

Vestir a camisa
de um poeta negro
– espetar seu coração
com uma fina
ponta de faca
– dessas antigas,
marca Curvelo,
em aço sem corte,
feito para a morte

– E acomodar
no exíguo espaço
de uma bainha
sua dor-senzala.

Algumas instruções de como levar um negro ao tronco

levar um negro ao tronco
e cuspir-lhe na cara.

levar um negro ao tronco
e fazê-lo comer bosta.

levar um negro ao tronco
e sarrafear-lhe a mulher.

levar um negro ao tronco
e arrebentar-lhe os culhões.

levar um negro ao tronco
e currá-lo no lixo.

Senzala

senzala
é a minha carne retalhada
pelo dia a dia.

senzala
é a sombra que tenho aprisionada
nos ghetos da minha pele.

Meu sonho

meu sonho
não é ter uma branca
que me chame de crioulo
a vida inteira.

meu sonho
não é ter uma mulher branca
que me acuse de ter misturado
sua raça.

A propósito de algumas fases do tratamento dentário

nas montanhas rochosas da boca
as claves dos vulcões

nas montanhas aquosas da boca
a cárie dos canhões

nas montanhas melindrosas da boca
os dúbios alçapões

nas montanhas espumosas da boca
as jaulas do leões

nas montanhas dolosas da boca
o muro dos senões

nas montanhas sulfurosas da boca
o vírus das transações

Faça sol ou faça tempestade

faça sol ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

faça sou ou faça tempestade,
meu corpo é cercado
por estes muros altos
– currais
onde ainda se coagula
o sangue dos escravos.

faça sol
ou faça tempestade,
meu corpo é fechado
por esta pele negra.

*Poemas do livro “A cor da pele”, Círculo de Poemas, 2025.