Pedro Paulo de Sena Madureira nasceu no Rio de Janeiro, em  25 de janeiro de 1947. Poeta e editor, destaca-se na editora da “Nova Fronteira”,  onde editou autores e autoras como Leonardo Fróes, Virginia Woolf, Mario Vargas Llosa, Lya Luft, Adélia Prado, T. S. Eliot, Marguerite Yourcenar e Umberto Eco. Em 1989, a convite do escritor Fernando Morais, mudou para São Paulo, para trabalhar como assessor especial na Secretaria de Estado da Cultura. Em 1991 cria o grupo editorial Siciliano. Em 2005, deixa a empresa em que foi editor e sócio, A Girafa. Conselheiro vitalício da Fundação Bienal de São Paulo, foi vice-presidente da Brasil Connects Cultura e Ecologia. De sua autoria os livros de poemas Devastação (1976) e Rumor de facas (1989). Dedica-se hoje a cursos sobre escritores: Marcel Proust, Jane Austen, Oscar Wilde, James Joyce, João Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges, Clarice Lispector.


O DESCONHECIDO

Não recebi
os alvarás de tua inauguração.

Não estudei
os ritos que dançaste
e não se adivinham
sob a luxúria de adornos e estranhos passos.

Não percorri
os mapas (espelhos
que estraçalham em sua carne
a imagem da gleba
em que te plantaste).

Não li
nos astrolábios enfurecidos
que subvertem alguma possível rota.

Não ultrapassei
as esquinas enevoadas
que escondem tua polícia
e proclamam a severa interdição.

Não te percas porém a achar-me,
não te sangres com lupas,
estiletes e goivas a cavar-me,

não te quero,
não te pertenço,
não tenho espaço nem tempo,
de mim oculto
no rosto de uma noite que é tua
te honro apenas com esta espada
que não te fere e perdura
isenta ao fio de tua mágoa.

EXÍLIO

Dentro de cada rosto vai-se
e perde o passo antes certo
que não se quisera passo, mas silêncio.

Se em vão caminha e nada encontra,
um rosto e cada ruga, cada cancro
conferem o périplo e o decretam
desde sempre, nas frias manhãs do tempo, nulo.

Mármores, fátua memória de um crime,
ou qualquer música degredada em pranto,
nada falta, mas fasta, imóvel, sucessiva
uma lua basta e sua lousa, desterro.

Letras, pedras, fomes, por entre grades paisagem
ou rosto informe no fundo de uma página,
vai a viagem ontem e esquece, urro ou simples erro.

LEGADO

Ao passado, a nossa compaixão.
Ao presente, o nosso asco.
Ao futuro,
.                   o que sobrar
de nossos torturados cascos.

OS MARGINAIS

Já não alcançam imagens,
já não se ferem ritmos.
Não se inventa a música
que à beira da paisagem morta
sedentos e calmos esperamos.

Estranhos nos movemos,
lentos não nos tocamos.
Cegos, à noite antiga,
uns aos outros, no silêncio
de um silêncio em que não nos ouvimos,
tampouco nos procuramos.

Não somos,
não estamos.
Não surpreende,
não dói,
não horroriza
a luz que além irrompe:

ela
(e suas imagens
seus ritmos
sua música)
se entrega aos ritos
do dia novo que
não nos suporta.

Fantasmas de nenhuma sombra,
sem cão que nos guie,
sem memória,
sequer tormento,
em alheio horizonte de vitória e alegria
tal é a luz que brilha
e não nos ilumina.

PEQUENO APOCALIPSE

Os espelhos, insaciáveis;
os corpos, indecifráveis;
as canetas, incansáveis;
os textos, seus fardos e sílabas secas;
o mundo, escarros;
o amor, cardos;
o tempo, suas tetas;
as trombetas do nada.

*Poemas do livro “Devastação”, Imago Editora, 1976.