Maria do Carmo Barreto Campello de Melo nasceu em 21 de julho de 1924, no Recife, Pernambuco. Poeta, formou-se em Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia do Recife, onde também obteve licenciatura em Didática, além de ter realizado cursos de especialização e aperfeiçoamento em Literatura e Língua Portuguesa na UFPE. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras e tornou-se acadêmica emérita da Academia Pernambucana de Artes e Letras. Publicou 14 obras reunidas em 12 volumes, sempre privilegiando o verso livre, em que a sonoridade exerce papel central. Faleceu em 23 de julho de 2008, no Recife.
O RECADO
Meu recado é curto
meu tempo urge.
Falo a linguagem dos desesperados
. (digo coisas essenciais).
Busco
busco ou apenas constato/me assisto
e ao além de mim?
. Sou uma palavra:
. rezai-me
. para que eu exista
. componde-me
. reintegrai-me
(ah, dai-me a beber todo o azul e todo o verde do mundo).
Curto é meu recado,
meu tempo urge:
– tenho a pressa dos que vão morrer.
IDENTIDADE
Situo-me no limite exato
entre o sonho
. e teu cotidiano
ser de fronteiras em tua indivisa geografia
ponto final.
Sigo à deriva do teu passo
vértice voltado para o teu rosto
insolúvel geometria
tenda armada na tua passagem
aleluia.
Espelho de teu amor
. ou de teu ódio
marco signo flor aragem
de mim não saberás
. tão-só que sou.
IDENTIFICAÇÃO
Põem meu rosto num cartão
(deram-me um número)
falam de cor da minha pele dos meus olhos
medem-me a altura
o logotipo do polegar
ilustra a página.
Há um espaço para o nome
do lugar onde nasci (nada dizem do flamboyant da minha rua
da casa branca de uma rosa trançada na janela)
Onde meus sonhos catalogados?
onde o sol amarelo que me aquece?
e o rio que atravessando me atravessa?
No papel assinalam
as pequenas coisas de que me teço.
Há muita gente
(por favor, deixem-me passar)
povoando as ruas.
Nada dizem
do essencial de Mim
da urdidura de dor que me compõe.
Fora do cartão
. imensurável
. indefinida
permaneço permaneço
POEMA ITINERANTE
Agora
. todas estas coisas acontecidas
pergunto o nome desta face amarga
que não sabia minha.
Estas mãos
. (um dia andorinhas?)
estas mãos perdulárias
de gestos desencontrados
labutaram em vão o ofício de ser.
Amigos,
. peço desculpas do espaço que ocupo
da palavra muda
. do número de não somei.
Amigos,
. onde gritarei minha mensagem esquecida
personagem que eu era/plateia que me fiz:
vim para dizer e me tornei silêncio
vim para marcar e onde meu pisar?
E este coração que se fez semente
de sonho nesta terra devastada
de mim
que farei de um coração feito de espanto
se recusa a morrer e se faz canto?
A IMAGEM
Isso
. que vedes
não sou Eu
. tão só as coisas que
. me compõem:
. o lenço, as mãos
. os cabelos vegetais e esse
. olhar longínquo.
As coisas
. só me anuncia,
e à minha presença múltipla e fragmentária.
Mas me adivinharia e a
meu trânsito nos dias. Sou uma dor itinerante.
Isso que vedes,
. não sou Eu
. só me antecede/me prepara
que vária e inconclusa
subsisto
e solidária assisto
. às muitas mortes de mim.
. Isso que vedes
. não sou Eu.
ESTÁTICA E DINÂMICA
É só isso
. e nada mais
o teto baixo da vida e da casa
e no entanto
. a segurança.
Pelas vidraças horizontais
se permeia
. o lá-fora
com suas paisagens móveis, transitórias
surpreendendo a perplexidade do olhar
ante
. a recusa e as possibilidades.
Só um gesto
. e a porta se abrirá para a rua ou para a vida
mas valerá o desconsolo
de levar a outras pairagens
a dor de ser
se aqui existem estes cenários estáveis
onde passeiam as coisas conhecidas?
*Poemas do livro “Íntimo Idioma”, Cepe Editora, 2024.