Alcides Celso Oliveira Villaça nasceu em Atibaia, São Paulo, no dia 28 de novembro de 1946. Poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro, é professor da Universidade de São Paulo desde 1973, tendo como foco de pesquisa a literatura brasileira, particularmente Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto. Como poeta, recebeu, em 1967, menção honrosa no Concurso Governador do Estado, na categoria poesia.
Esses poetas
Esse tem um plano, e já se aplaude.
Esse arde em memória, lembra e sopra.
Esse quer ter saudade, abre e morde.
Esse tem mistério, solta e fecha.
Esse faz humor, diz que desdiz.
Esse tem traçados, pesos, balanças.
Esse faz versinhos, chuleia em casa.
Esse faz história, borda pra fora.
Esse é rapsodo, come de tudo.
Esse é noctívago, retoca olheiras.
Esse é sonâmbulo, vive em sacadas.
Esse é pintor, usa dedos de água.
Esse é diabético, requer penínsulas.
Esse é ingênuo, dá o braço a virgílio.
Esse é irônico, quase não confessa.
Esse é dramático, cospe a própria máscara.
Esse é profundo, nunca vem à tona.
Esse é tão casto, toca luvas na harpa.
Esse é sem norte, sem sul, sem sorte.
Esse é tão seco, ninguém tem saco.
Esse é tão sutil, dedilha anagramas.
Esse é tão ambíguo, versos tão bimembres.
Esse é tão puro, tão puro, tão puro.
Homero no chuveiro
Mil imagens calorosas
em fluxo contínuo
mil ideias
em curso
a toda vela
achoa que descobri o mundo
Breve
só há remos encalhados na areia
o vapor escorre no azulejo
e o herói acorda
embrulhado na toalha Bom-Dia
Dona crítica
A senhora não se avexe:
diga que sirvo pastiche
com molho de escabeche
e sorvo tudo em pistache
numa porção de dervixe.
É justo que me esculache
se tenho tão pouca ficha.
Eu mesmo faço capacho
dos versinhos que remexo.
Quanto ao ptyx… vixe!
não tenho concha que feche
nem esmeril que me lixe.
Como a senhora bem sabe,
hoje em dia está dificílimo ser original.
Compensação
Para os autores
os livros de autoajuda
trazem uma grande vantagem externa
aliás implícita.
Já os autores
de livros de alquimística
sabem a metamorfose em ouro
da pura titica.
Minha esperança:
a lírica
animula vagula blandula
dirá às senhoritas
que meu interesse é praticamente desinteressado.
O primeiro mistério
Se a goiabada é feita de goiaba,
se de limão é feita a limonada,
do que será que é feita a madrugada,
a alvorada, a revoada… De nada?
A madrugada é feita dos passeios
que as última estrelas dão não céu;
a alvorada é feita da preguiça
do sol que acorda e os braços já estendeu;
a revoada é feita pelas asas
de quem durante a noite adormeceu.
Mas de que é feito o céu? E o sol?
E cada estrela? E quem voou
antes que houvesse asas
e em seu próprio mistério se escondeu?
Retrato relâmpago
o olhar do menino
o olhar pensativo do menino
sentado no cachorro.
(o menino sentado no cachorro
esperou cinquenta anos
para se olhar pensativo
sentado no cachorro)
*Poemas do livro “Ondas Curtas”, Editora Cosac Naify, 2013.