Nuno Rau, nascido na cidade do Rio de Janeiro, em 14 de março de 1963. É poeta, letrista, arquiteto e professor de história da arte. Tem poemas em diversas revistas literárias, e nas antologias Desvio para o vermelho, do Centro Cultural São Paulo | CCSP, Escriptonita, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência, ambas pela Editora Patuá. Publicou o livro Mecânica Aplicada (2017, poemas), finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura. É coeditor da revista mallarmargens.com e ministra oficinas de poesia no Instituto Estação das Letras IEL.

 

daqui [ repara
os vermes sob os lençóis duas,
décadas, vinte a quatro meses e estes dias — três
vezes sete
anos de pastor e mais algumas mortes retidas nos poros
do tecido em que os restos das pele impressa pelo arame
farpado das horas se escondem
levando consigo versos como se fossem
esperanças  ou
cinzas]

traições
que nome dar a essa aparição?
aparição? sereia? alumbramento?
Que deus nomeia as coisa no momento
exato em que emergem, vivas, do vão
de antes do tempo e dinamitam no ar
estopins de sentindo? Desencontro
marcado, espelho de reflexo esconso,
campo minado e que vai tatuar
sua fúria este demiurgo, mestre
da injúria, da mentira e da traição,
os nomes e os seres, sempre em vão
encenam seu balé como um desastre
anunciado e eu — vendido — meço
lapsos no biscate incerto de versos.

manual técnico da dispersão
leia se puder
o que segue escrito na carne dos dias
são signos sobre signos sobre signos
soterrando os sentidos
mas leia
se puder arrancar o que lhe diz respeito
se puder arrancar alguma luz da floresta
de símbolos
se puder arrancar das linhas do fundo
escuro deste labirinto
desenhado sobre o corpo

não
você não
pode

dia suspenso
estende o hálito da tarde sobre mim
dia suspenso
dia que perdi num lapso branco revestido por vermelhos avos
e emergido assim da treva em cores de marfim

há lápides no ar
extensos ritos sons dispersas iras
tal cravos de arlequim
e sorriso nenhum sossego
pânico nenhum
só me espargiu o travo desse dia resgatado ao desterro

não ir é o meu caminho
e a nula urgência e a falta de motivo
formam pacto comigo
quando este dia elimina
rosto abrigo treva tempo
sentido.

o que é a poesia?
depois que os pais morreram
voltou à sua cidade
para vender a casa antiga
onde passou parte da infância

cambiou a quantia obtida na venda
por euros
e transferiu o montante para sua conta
em Bruxelas
onde vivia num pequeno estúdio
alugado com 3 peças dando para os fundos
o que tornava muito silencioso
estar ali exceto
nos dias de chuva quando as gotas
tamborilavam nas folhas
de zinco sobre a varanda

no ano passado foi encontrado
morto: um assassinato sem pistas que
deixou a polícia aturdida
mas a chuva
nas tardes em que chove
ainda reverbera no telhado
de zinco a sua música
apenas abafada pelos
relâmpagos quando isso
acontece.

4
a ordem aparente deste verso
saltando a linha que divide o caos
das coisas indistintas, em total
desordem, e vem marcar o começo
de mais um soneto, como se a folha
em que é escrito fosse um mundo à parte
do absurdo em torno, que, sob um disfarce
de coisa inevitável nega a escolha
entre a chance remota de um acerto
incerto, imagem errante, agra flor
no falso deserto do real, e a
outra, de um constante desconcerto,
ordem apenas aparente, for-
tuna de erro de quem morre à míngua.

*poemas extraídos do livro “Mecânica Aplicada”, Patuá, 2017.