Rosa Oliveira nasceu em Viseu, Portugal, em 1958. Poeta e Professora, publicou os ensaios Paris 1937 e Tragédias Sobrepostas: Sobre O Indesejado de Jorge de Sena. “Cinza”, o seu primeiro livro de poesia, foi galardoado com o Prémio PEN Clube Primeira Obra, em 2013. “Tardio”, igualmente publicado em 2017, obteve o Prêmio Literário Fundação Inês de Castro. Tem poemas editados nas publicações literárias Relâmpago, Colóquio-Letras, Suroeste (Badajoz, 2016), Cidade Nua e nas antologias Voo Rasante (2015) e Os cem melhores poemas portugueses dos últimos cem ano (Companhia das Letras, 2017.


LETRA Z

aqui vamos nós
simples seres de geometria variável

estava ele a recordar uma estrada
pela qual nunca tinha passado

não te inquietes
antes de haver cintos de seguranças e airbags
já havia miúdas e acidentes de automóvel

PEQUENO POEMA QUASE BRECHTIANO

nós
os bons poetas portugueses
usamos palavras simples
para chegar mais perto da
pele profunda das coisas

e assim trocamos
a estrada de Damasco
por Tebas a das sete portas

NÓS, OS VENCIDOS DO FUTURISMO

estas colinas são resultado de anos de erosão e de pensamento
escrever essa violência
escrever, essa violência
calar essa violência
calar, essa violência
fugir para a paisagem lunar da teoria

ser bom nadador e atirar-se para a piscina
é o resultado de trabalho e esforço
ser um nadador inseguro e atirar-se
para o lago dos tubarões é mais difícil

cercados por nihilistas e narcisistas sedentos de sangue
a vida na savana não está fácil

DESCONFIANÇA DA HISTÓRIA

estamos de passagem
a caminho de feitos mais importantes

solhas, carpas
tudo símbolos
que não se podem partir
tudo porcelana narcótica
vinda diretamente
do interior dos fatos

não podemos é deixar que
os sentimentos nos viciem

e já se sabe
à medida que avançamos
aumenta a luz crua:
pouca paciência para epifanias

AMARGO

as minhas inquietações não dão poemas
as minhas inquietações só dão outras inquietações

a cor das folhas gritava pela sala
laranjas amargas e brilhantes

falava sempre bafejada pelo espírito do sangue

A TERRA A QUEM A TRABALHA

o mundo tinha ficado para trás
o mundo enevoado e tosco
com as suas mãos encardidas
de carpinteiro exausto
o mundo mal polido
a pele um pouco rígida do mundo
o frio escondido
no canto do olho
embaciado de vogais
altas
tônicas
por vezes nasais

as farpas eriçadas
do mundo
entalado entre papéis
a ranger dentes
perdido na poalha
de tarefas suspensas
um mundo inacabado
estremecia no piscar de olhos velozes
o tal coração vagabundo quer guardar o mundo

as pessoas não deveriam estar lá fora
no mundo
a fazer qualquer coisa!

*Poemas do livro “Natureza Quase Viva”, Editora Corsário-Satã, 2021.