Liana Ferraz nasceu na cidade de Bragança Paulista, São Paulo, em 1982. Poeta, escritora e atriz, se define como “artista da palavra e da voz”. Publicou três livros, sendo o mais recente o de poesias “Sede de me beber inteira”, em 2022. Em 2024, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, com o romance “Um prefácio para Olivia Guerra”. É doutora em Artes Cênicas pela Unicamp e pós-doutora pela USP.


[sobre o invisível – apague a luz]

– Apague a luz.
– Quero te ver.
– Tenho vergonha.
– Você é linda.
– Sou linda no escuro.

[manifesto]

Comercial comida cheiro
O que é na foto o que é na vida
A família que não é
E nunca será de margarina
Porque não é plástico petróleo pasteurizado
fingindo gosto
A ceia que não é e nunca será comercial
de peru que não mostra gosto azedo de morte
e de intolerância e de desafeto
A pele que não é e nunca será esse solo liso de
quem nunca pisou estrada ou teve catapora ou
teve espinhas ou tem poro de suar
A casa que nunca será de loja de decoração
porque tem gente que deita come migalha
restinhos pipoca amor nela. E amar suja.
Ainda bem!
A cara que nunca será
O prato que nunca será
O look que nunca será porque a gente anda
caminha tropeça e senta e rasga e sai sem
querer piscando na foto.
O perfeito que nunca será.
O sem erro que nunca será.
Ainda bem que nunca será.

Ainda bem que imperfeito faz curva história
amassado ruga rusga discussão pereba prato
feito de comer no colo pessoa que sua e que sua
sua em você prazer que escorre que a gente
lambuza. A bolha no pé. O pé. O tempo no rosto.
O rosto. O pedacinho de torto. O torto.
O lado diferente. O diferente. A cicatriz. O rasgo.
O detalhe. O detalhe.
O detalhe o retalho o trajeto abjeto sujeito imperfeito.
Humana.

[a morta pelo marido]

pela foto se vê que era abusada estava
implicando estava dando sopa dando motivo
dando o que falar
Aí a morta precisa das explicações.
Mas a morta não fala
Aí pedem explicações às fotos da morta.
E se lá em algum momento lá em alguma festa
e se lá em alguma bebedeira aparece a morta
no “escândalo”
enterra-se a compaixão junto com a morta
Que mulher precisa de “atestado de mulher
direita” para não ficar sendo assassinada
depois da morte pra não ficar sendo
apunhalada violentada.
Para morrer mulher e gerar compaixão é
preciso ter sido pura discreta boa moça mãe
de família.
Assim fica dado o recado
Espalhado pelo ar
Mulher que não quer ser morta
Precisa se resguardar
Assim fica dado o recado achado o motivo
Que morte de mulher nunca é culpa do marido
É sempre alguma coisa que ela fez de
descabido
Para garantir que mulheres sejam
Sempre domesticadas
A mulher mesmo morta
Segue sendo julgada
E condenada.

*
saudade
é quando a gente sabe
que não tem força
mas fica insistindo no interruptor em busca
da luz

que acabou
que acabou
que acabou

*Poemas do livro “Sede de me beber inteira”, Editora Planeta, 2022.