Paula Abramo nasceu no dia 2 de setembro de 1980, na Cidade do México, México. Poeta e tradutora de literatura brasileira no México, publicou “Fiat Lux” (Fondo Editorial Tierra Adientro). Traduziu obras de nomes como Raul Pompeia, Clarice Lispector, Luiz Ruffato e Angélica Freitas. Por conta de sua tradução do livro “A cabeça do santo”, de Socorro Acioli, venceu o XXIV Prêmio Giovanni Pontiero, em 2024.
INTERLÚDIO BUCÓLICO
. e nem sempre são as mesmas circunstâncias
. que cercam a breve vida do fósforo
. variados são os dedos
. que o acendem as mãos
. às vezes sinistras às vezes
. mutiladas
. ou cobertas de aromas
. com um esquema de calos
. sempre único
. denunciando o ofício
. com uma mancha
. irrepetível (tinta? terra? graxa? sangue?)
. com firmeza ou afetação ou descuido
. os dedos
. (mas sempre com certa pressa)
. que acendem o fósforo
. para fazer acontecer as coisas
Certas histórias só acontecem nas florestas nubladas,
ou em lugares equivalentes
mais ao sul, onde as serras,
são colinas que mal se erguem
de tão curvas, quase maternas,
forradas por espessos cafezais.
Lá, o jantar consiste
em batráquios
caçados à noite,
algazarra de patas e cebolas
esquartejadas num caldo.
Como frutos do brejo,
verrugosos.
Os trópicos também têm suas bondades. Como essas,
de descendentes de imigrantes húngaros
que caçam rãs
para uma sopa
com leite de coco,
numa vila de nome inverossímil
– Solemar -,
de inesperadas cúpulas
de igreja
piramidais, resquícios
de Budapeste, de Lugoj,
de povoados vistos pelas frestas
de um trem blindado,
uma vila num litoral antípoda,
onde as conversas
namoram na varanda em romeno,
conspiram em húngaro, cozinham
em alemão, meditam, tecem
lembranças de neve na tarde
de mosquitos
entre xícaras de café com rapadura
e caldo de cana gelado,
jaca, manga, caju
com hortelã
ao cair da tarde.
APRESENTAÇÃO DO PADEIRO ANARQUISTA
BORTOLO SCARMAGNAN
. acenda o fósforo
. já vou acender
Ríspido, o fósforo acende o forno.
O século se acaba; até a aurora
faltam umas cinco horas mais ou menos.
A hora não importa, importa apenas
o gélido rodar do céu
sobre os rios. Hoje é algum lugar do Vêneto,
e o forno.
E hoje só importa a cúpula do forno.
A farinha vira pão, o pão é carne.
O pão são essas coxas que despertam
tarde da noite, roçando em outras pernas,
e saem antes do nascer do dia
para acender o forno e a madeira.
Mas quando brota o sol, o pão não basta.
As constelações peneiradas sobre o chão não brilham
se tudo está atulhado de gendarmes
e é preciso fugir em um vapor.
(FALSA) FRONTEIRA
. a palavra fronteira também não demarca
. suas próprias margens
. nem ensina como decifrá-las
. seja em termos de cor
. seja em termos de tempo
. ou de textura
. e fica lá aberta
. como uma fruta
. como um elo rompido
. que dá margem à fuga
. de sentido
. um fósforo pode
. definir um limite
. dependendo do que acende
. para fins semelhantes
. um fogareiro um fogão
. a gás
. um forno
. ou uma fogueira
Imagine uma casa nos subúrbios,
uma linha divisória,
uma rua mal asfaltada e, de um lado,
casas com laje, janelas, pilastras; do outro,
apenas tetos de zinco
e calhas confusas e remendos
de papelão pingando
sobre o barro,
e nos dois lados, cupins,
coelhos, capim
crescido,
galinhas
bicando as sobras, os nadas,
humildemente,
como uma espécie de ferrugem viva e coletiva,
para depois terminar
em canjas acanhadas
nos dois lados da rua, mas lá no meio
um acidente vermelho, que vem subindo
a ladeira de mangas apodrecidas
e moscas:
Gotículas, rede esponjosa de alegria,
cheiro de coisa nova, quase áspera
de tão lisa, e vem rolando,
a cucurbitácea gargalhada
das terras roxas de Jundiaí,
prestes a arrebentar,
com suas líquidas entranhas ressoando
em ecos:
ecos no céu da boca, as narinas
com ecos
de açúcar e chuva e cana,
quarenta quilos de fruta
numa só melancia,
como se fosse uma criança gorda
transformada em polpa
e rolando
sobre o asfalto rachado
entre sorrisos e passos
firmes de especialistas,
que teimam em semear
a fruta, que,
depois de muitos trancos,
por fim estanca.
Não é mais uma fruta e sim uma oferenda inchadíssima,
a melancia,
meio trincha e absurda numa casa
que não tem geladeira,
onde tudo é o calor de janeiro.
E então
um lado da rua, o das casas grandes
onde cada morador tem um quarto,
grita para o outro lado,
o dos seres apinhados embaixo de chapas imundas,
as galinhas correndo ao meio-dia
nos dois lados da rua, e aquela fruta
se abre
sangrando como um grito de açúcares
de curta
duração,
que se mistura à terra,
aos gritos das crianças que vê correndo
ou que choram penduradas em suas mães
grávidas outras vez.
Quarenta quilos de fruta repartidos,
convívio repentino entre dois lados de uma rua
onde faltam geladeiras, e então o leite,
os súbitos presentes, os biscoitos,
tudo é dividido assim,
sem grande alarde.
*Poemas do livro “Fiat Lux”, Editora 34, 2012.
Tradução de Gustavo Pacheco