André Capilé nasceu em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. Poeta, tradutor, performer e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), graduou-se em Filosofia na UFJF. É mestre em Estudos Literários e doutor em “Literatura, Cultura e Contemporaneidade”, pela PUC-Rio. Integrou o corpo editorial da revista escamandro e é parte do conselho editorial da Edições Macondo. Publicou “rapace” (2012), “chabu” (2019) e “rebute” (2019), pela editora TextoTerritório; “balaio” (2014), pela coleção megamini da 7Letras; “muimbu” (2017), “paratexto” (2019) e “azagaia” (2021), pelas Edições Macondo. Traduziu “The Love Song of J Alfred Prufrock” como “A Canção de Amor de J Pinto Sayão” para a coleção Herbert Richers das Edições Macondo, “Don’t Call Us Dead” [Não Digam que Estamos Mortos] de Danez Smith, publicado pela Editora Bazar do Tempo e “O Cometa” de W. E. B. Du Bois, pela Editora Fósforo.


baldio

um rio, são rios de água vária,
que na avaria do terreno encontra
percurso, um rio tem muitos caminhos,
em que desaguam pedras, queda bruta.
que não por navegar, mas de ser levado
a beber dele – o remoinho – um rio
que corre sem córrego, natural
da força donde se cria a si, sem
freio – puro dínamo de ser rio
corrente, uma usina de não caber
em comportas – não se estagna em remanso.
nos damos muito próximos à dança
mobilizados ao tremor dos dias.
brandos, somos dois; somos como bandos.

alarma

os cotovelos duros na janela
para confirmar a mãe no presente

o velar sem palavra o sono cônscio
embora não te deite mais à cama

confirma a mãe um estado de espera

seguir por fiar da flor os plurais
o que de si demuda sem piscar

*Poemas do livro “rebute”, Editora TextoTerritório, 2019.

zangarreio

enquanto cadeiras
são lotadas por
esquecidos
(cadeiras latifúndio tipo luxo
lotes baldios) leis
com todo vigor
prendem mas não pegam
enquanto cadeias
são lotadas de
ex-famosos
deslembrados
andam na linha
e vão cada vez
mais dentro
enquanto cadeias
estão lotadas por
esquecidos
futuros tipos de esquecidos
fazem filas para
entrar e estar
cada vez mais dentro
e uma vez dentro
formar quadrilhas (cirandas
entre cadeias e cadeiras)
enquanto no pátio
outros atores que são
de dentro fingindo
querer estar fora
zumbis cavam
com colher pequena e
mineram em covas
de outros esquecidos
que amontoados feito ratos
(do dentro e do fora
cabeça a cabeça
espremidos corpo
a corpo) atritam
cotovelos esperando
fogo de ideias
que são as mesmas
ideias de cadeiras e
cadeias embora
cadeias e cadeiras possam
ser mais que só ideias
quando ideias passam
a ser mais que fogo
textos menos cinzas
territórios menos escombros

bambalaje

eu passei pela prova da carne, arquiteto.
ninguém viu, nem se deu pelo fato. é um dado
que assim com nobres pés, um dedo andasse perto
de um beijo lento em seu quadril como um compasso.
não tinha cor, nem harmonia. só um teto
de arte plana e sem quinas, canto esmerilhado,
um desafino de alegria – faz bem ser reto,
ainda que a cobrança o julgue como chato.
se falam de má fé, eu ando pelo certo.
é mais útil que ser blasé – o estar cansado,
aquele tipo otário que se crê o esperto,
se acha bem na fita, mas é só cenário.
e se ninguém for anular o saco, amor,
eu vou seguir fazendo o meu melhor, pior.

clínica

uma assombrosa selva, o teu sinteco;
onde o cupim não rói mais os jornais
do dia, e sim mantém a arara em pé.

faz bem você deixar coisas de fora.
largue a marola do vinagre agora –
o enguiço está nas malhas do alheado.

pula pra dentro de uma vez, pois é
a chance das janelas serem limpas.
enquanto criam domésticas traças,

as camisolas não vão mais quarar
no sol mais alto. a possessão da peste,
nenhuma fauna vai mascar peçonhas.

há sempre um meio, ao meio do caminho.
serpentes não se mordem sem motivo,
embora o inferno mofe com lembranças.

bilhete

busco entender os eventos menores
enquanto resolvo como ficar
entre sobras – sem forçar mais que o necessário.
embora não haja com quem falar
da ordinário precisão do banal,
saiba que no correr das últimas semanas
tenho me dedicado a novos temas:
um vário repertório de coisas inúteis.
um modo de retomar a leveza?
pode ser. não quero saber mais de
fim do mundo – nem de “últimos tempos”
– menos ainda dos assuntos pingentes.
mas, quando acesso a lotação
dos nossos dias juntos, temo
não parar de pensar que ter
passado todos os momentos
entre estantes e prateleiras,
sapatos e meias, me fez
desfiar o que nos restava:
pouca coisa ou quase nada.
já comecei, não se preocupe;
pois serão poucas as viagens.
o que tenho tentado dizer é
que só levo, por enquanto, o que posso
carregar – sem que nenhuma lembrança
vivo dentro de mim só como peso morto.
vê: terminei de esvaziar uma ala inteira –
a falta não faz a medida das gavetas –
torço (se tiver que cavar memória)
escolher melhor cara de surpresa.
agora o difícil, difícil mesmo,
é sacar, sem você, como aprontar as malas.

*Poemas do livro “rapace”, editora TextoTerritório, 2019.