Raúl Zurita nasceu em Santiago, no Chile, em 10 de janeiro de 1950. Poeta, crítico literário e professor, lecionou literatura na Universidade do Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, e atualmente dá aulas na Universidade Diego Portales, no Chile. Militante comunista, foi detido, encarcerado e torturado durante a ditadura militar de Augusto Pinochet. A partir dessa experiência, realizou diversas ações artísticas que buscavam integrar e ampliar, de forma crítica e criativa, as diferentes concepções entre arte e vida. Desenvolveu performances utilizando o próprio corpo como meio de expressão, chegando à autolesão e à automutilação. É um dos poetas mais laureados da literatura chilena, tendo recebido importantes distinções, como o Prêmio Pablo Neruda, em 1998, o Prêmio Nacional de Literatura do Chile, em 2000, e o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, em 2020.
A marcha das cordilheiras
I. E ali começaram a se mover as montanhas
II. Estremecidas e brancas ah sim, brancos são os topos
. gelados dos Andes
III. Desligando-se umas das outras como feridas que foram
. se abrindo pouco a pouco até que nem a neve as curasse
IV. E então erguidas como se um pensamento as
. movesse dos mesmos nevados das mesmas
. pedras dos mesmos vazios começaram sua
. marcha sem lei as impressionantes cordilheiras do Chile
Meu amor está triste
Meu amor está triste porque morri. Diz que
nunca mais as flores irão abrir nem meu sorriso verá
mais. Ele também diz que voltarão a crescer os
grandes rios sobre a terra e que então jamais irão
derramar-se. Repete que quer ir embora comigo. Não
os espinhos que crava em si não lhe doem nem a água
fervendo que derrama.
Ele diz que mesmo que os animais o parente
morra, sem palavras, deixando a noite e o
dia negros. Minha irmã lhe responde que só
o choro é chuva e que nem ela nem ninguém irá parar de
chover nem aves cantoras nem carinhos ouvirá
mais. O meu amor conta que para o norte, de
onde vêm as águas, os olhos se devoram de
tão azuis. De amor, diz, os garotos e
as garotas se olham nos olhos azuis e eu
só vejo seus olhinhos da cor do lodo, suas
pálpebras enrugadas, seus olhinhos. Assim gemendo ele
grudou a boca em mim cantarolando e o gemido
ia subindo da minha cara para mais alto, sim
paizinho, abrindo-se como uma imensa
noite na qual vinham ó sim, queridos rios, queridas
árvores, queridas montanhas, queridos ventos,
queridos céus, querida gente. Queridos rios.
Como um sonho
Vamos lá: você não quis saber nada deste
deserto maldito – lhe deu
medo eu sei que te deu medo
quando soube que havia se
internado por estas porcas
pampas – claro você não quis
saber nada mas lhe escaparam
as cores da cara e bem
me diga acreditava que era pouca
coisa emaranhar-se por lá para
depois voltar do seu próprio
nunca revirado estendido
como uma planície diante de nós
Quebrando-te
derrubando-te, como quando às vezes
você grita comigo que não nasceu
Correm os restos sobre as águas e
são os restos do meu coração
Assim quebram-se estes rios e não há
nada além do lamento leito abaixo
torrente abaixo
onde nos precipitamos chorando-nos
Assim quebra-se meu coração e nada existe
nem nada vive
fora do contínuo curso dos teus rios
fora do assédio das tuas águas
Inscrição 17
Os rios cresceram e os países vieram me
visitar. Em seguida atacaram pelo ar,
com helicópteros e eu me quebrei toda vendo
se você vinha entre os enganados.
Os presidentes falaram comigo, que sou
humilde e silenciosa, falaram-me coisas de
entendimento, mas eu só imagino que
você me olha e da sua compaixão me
fortaleço.
Chilenos e irmãos me dizem que não fale
porque todos temos registro, mas não me
importa se você não está, ainda que não sinta
pena de mim não me importa porque se
sentisse pena, viria. O Presidente me trouxe
notícias, mas você nunca aparece, nunca aparece
nem se aproxima nunca para que eu agora te
humilhe, ó meu de mim, com palavras da minha boca.
O país do gelo
O desamor congelou então o Pacífico
um diante do outro suas defesas eram dois
enlouquecidos placas de gelo flutuantes aproximando-nos
*Poemas do livro “Sua Vida Quebrando-se”, Editora Círculo de Poemas, 2026.
Tradução de Francesca Cricelli