Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto nasceu em Santos, São Paulo, no dia 12 de março de 1898. Poeta, escritor, diplomata e jornalista, foi membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira 26. Aderiu ao Integralismo, corrente política e ideológica de extrema-direita, idealizada por Plínio Salgado. Em seguida, defendeu o Estado Corporativo e a denominada Democracia Orgânica, condenando a liberal-democracia. Teve um carreira diplomática bem-sucedida, até tornar-se embaixador do Brasil na Iugoslávia, em 1952, cargo em que se aposentou. Para os jornais, enviava sobre literatura e acontecimentos na Europa. Em 1958 conquistou, em Paris, o prêmio internacional de poesia outorgado a estrangeiros, pelo livro “Le jour est long” (que escreveu em francês). Sua obra mais famosa é “Cabocla”, adaptada duas vezes para a televisão. Ribeiro Couto morrem em Paris, França, no dia 30 de maio de 1963.
Santos
Sobre a cidade a tarde cai mansa.
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais juntos às águas oleosas!
Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.
Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.
Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.
Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?
O estrangeiro
Andando eu por Paris num vago dia
De violetas e cinza pelo ar,
Senti que a vaga dor que me doía
Vinha mais do esquecer que do lembrar.
O Sena sob a chuva, como eu via,
Levando barcos lentos para o mar,
Era uma imagem da melancolia,
O adeus da Capital crepuscular.
A ninguém que passava eu poderia
Estender minha mão, querer falar,
Pedir fraternidade e companhia.
Era só, na paisagem milenar,
Paris de Santa Genoveva ̶ e a fria
Sombra da noite sobre o boulevard.
Soneto
(Aos revolucionários de 1817)
Filhos da Pátria, jovens brasileiros,
Que as bandeiras seguis do márcio nume,
Lembrem-v0s Guararapes e esse cume,
Onde brilharam Dias e Negreiros.
Lembrem-vos esses golpes tão certeiros
Que às mais cultas nações deram ciúme;
Seu exemplo segui, segui seu lume,
Filhos da Pátria, jovens brasileiros.
Esses, que alvejam campos, níveos ossos
Dando a vida por vós constante e forte,
Inda se prezam de chamar-se nossos;
Ao fiel cidadão prospera a sorte:
Sejam iguais aos seus feitos os vossos,
Imitai vossos pais até na morte.
*Poemas do livro “Poesias Reunidas”, Livraria José Olympio Editora, 1960.