Thales Guaracy nasceu em São Paulo, em 15 de março de 1964. Poeta, romancista, jornalista e editor, trabalhou como repórter em veículos como a Gazeta Mercantil, O Estado de S. Paulo, a revista Exame e, sobretudo, a Veja. Estreou como romancista em 1998, com Filhos da Terra.
Na poesia, publicou Asas sobre Nós, uma história afetiva daquilo que denominou “geração da liberdade”, abrangendo o período que vai da redemocratização dos países da América Latina e da queda da Cortina de Ferro até a retomada dos conflitos políticos e sociais impulsionados pela onda reacionária dos anos 2020. O livro foi publicado pela tradicional editora portuguesa Assírio & Alvim, que retomou sua atuação editorial no Brasil em 2022.
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O caminho das letras
Caminho das artes
É onde as lutas são ganhas
É nunca perdidas
Em belas campanhas
Que valem a vida
Arte é sempre revolução
Expressão da liberdade
Pedra filosofal
Base universal
Da civilização
No mundo das ideias
Há sempre esperança
Para os paladinos da liberdade
Nós do colégio mais velhos ficamos
Mas nunca nos separamos
Somos sempre os “irmãos”
E nos encontramos
Carinhosos e barulhentos
Sem envelhecer
A mudança que iniciamos
Ainda está em curso
Missão a completar
Fim da transformação
E dessa tarefa só sairemos
Para a eternidade
Elos para sempre
Cumprindo a profecia
De que o mundo avançaria
Com ideias e tecnologia
Arte e ciência
Criativa essência
A gestar o desconhecido
Instante brilhante
No livro da eternidade
Era preciso ainda a nação
Prometida na tradição
Ficar livre feliz desenvolvida
Achando para si uma saída
País pleno deixado
De ser imaginação
E a hora para nós era agora
Quando a gente saía da infância
Num Brasil envelhecido
Antes mesmo de nascer
*
A lembrança e a busca
De você e do passado
Enlaçadas as mãos
Numa atemporal dimensão
É tempo que não recomeça
Porque nunca acabou
Tempo que não teve pressa
De mostrar a mim o que sou
Menino repleto de sonhos
E das certezas da vida
Capaz de tudo e de tanto
Para quem uma estrela era perto
E não há no mundo deserto
Nem susto nem medo e espanto
Capaz de impedir que mudemos o mundo
O futuro e mesmo o impossível
Porque temos o sonho
Tempo de grande esperanças
Determinação e capacidade de realizar
Certezas do jovem
Aquele que sabe tudo
Pode tudo e arrosta os perigos
Coragem a que nada resiste
Sem aliados, apenas amigos
Ombro a ombro como na falange
Sarissa e escudo
Vontade em riste
Tempo do eu sem espelho
Ao qual volto hoje mais velho
Com manchas e calos da idade
Mas dentro de mim
Ainda está a necessidade
Dos jovens tempos felizes
Deixados como raízes
E da tua face risonha
De quem está sempre contente
E faz a vida mais leve
Sorriso de peito aberto
Que eu conheço de longe e de perto
Sorriso que sinto ser meu
Mas a mim o destino não deu
Nunca é tarde se ainda existe
A última tábua de quem insiste
Em salvar-se de um destina de malmequer
Invoco um sortilégio qualquer
Para reviver a juventude
Volta onde se conserta tudo
Mistério para quem em ministério crê
Na janela do tempo aberta
Tempo que só existe para quem vê
Tempo que para mim é você
Mergulho na memória
Na nossa história de amar
Sonho azul ido ao fundo
Flutuante do meu mundo
Implorando enfim por respirar
*
Só depois do gesto malfeito
Os olhos da serrana bela
Que já foram amor iridescente
De amante amiga e confidente
Indagam no brilho angustiado
Se tinha feito algo de errado
Porém é tarde de repente
Tarde não só para mim e para ela
Tarde pelo gosto do fim
De algo que não tem mais jeito
Desarrumado dentro do peito
Algo que não volta atrás
Fica só o espanto
E levanto
Chocado e com a cara de pranto
De quem vê um vaso quebrado
*Poemas do livro “Asas sobre Nós”, Assírio & Alvim, 2022.