Tatiana Faia nasceu no dia 30 de junho de 1986, em Lisboa. Portugal. Poeta,  professora e editora, venceu o Prêmio de Literatura PEN na categoria Poesia, em 2019. O seu livro “Recurso de Pobreza”, foi considerado como um dos melhores livros de poesia de 2025, pelo Ípsilon. Atualmente vive e trabalha em Oxford (Mississippi, EUA) e também como editora do projeto editorial “Enfermaria6”.

1.

um deles enleou-se
e não por engano
numa rede que cobria a fachada
de um prédio em obras
na rua adriano
parei para o ver

não percebi
como adquiriu este hábito
saía sempre não sei de onde
atravessava o passeio
ziguezagueando por entre os turistas
e desaparecia por um buraco na rede

repetia a mesma coisa quase todos os dias
enrolava-se para dormir suspenso
acima da minha cabeça
num ângulo que parecia desconfortável
o seu corpo como uma bexiga d’água
prestes a rebentar
procurando por entre a sombra
o pico do sol de outono
sem ângulos agudos nem arestas

a sua perfeita circularidade
vigia-me de olhos abertos
quando estende que o observo
e segue-me quando começo a seguir em frente
os olhos ponteiam como aguçadas pontas de lápis
e estudam o inesperado apontamento de qualquer presença

segue-me mesmo quando já não estou a olhar

os seus olhos
entram de novo pela rede do túnel
atravessando pelo lado mais obscuro da memória
onde deixaram uma pequena marca
como uma boia esquecida no meio do oceano
que às vezes regressa à superfície
me deixam diante de uma indecisão de pormenores
as coisas que são para ser perdidas
no discurso dos dias

e recomeçam a emergir
no pelo branco do focinho
com a mancha amarela na orelha
até os olhos verdes

a teimosia de predador com que certas imagens
de uma curiosidade aleatória me perseguem
e regressam sem como nem porquê
cifradas num movimento completamente seu

hábitos favoritos entrecruzando-se
com os meus num ponto onde um destino para
olha para mim
e refaz o caminho de volta
através das sombras
para acelerar num salto
que ultrapassa várias vezes
a minha própria altura

2.

na fotografia também não está
a raiva das raízes extraídas
com golpes precisos violentos
em sucessivas camadas
não se vê o primeiro corte à superfície
a aguçada agulha que marcava nas bússolas
os polos magnéticos
avariou-se e não explica
como encontrar o antínoo em falta

o mármore não brilha nas noites
de inverno de gente mais ao norte
e não é o corpo amado de noite

a brancura das estátuas também
não é como a matéria anoitecida do amor
e ninguém começa por apaixonar-se pela morte

neva em delfos inesperadamente
para onde caminhei por acreditar
que o mundo é sagrado e tem um centro
visível no traço que os braços desenham
erguidos ao alto apontam o ar noturno
revelando no gesto
as diferentes cores das estrelas
os vasos cobrem-se de musgo
e a noite de inverno apaga as estações
ninguém sabe bem o que acontece
quando sucessivas camadas
sepultam a alegria
a muitos metros debaixo do chão e ela
é redescoberta por acaso e germina de repente

antínoo em delfos guardava os portais
e depois foi coberto pela passagem do tempo
com um esquecimento de morte

que o deixou vários séculos abaixo
das sementes que plantaste na tua casa junto ao vale
e que morreram como os corpos
na febre das doenças sazonais

e eu nunca pensei em antínoo
junto à biblioteca de adriano em atenas
quando teodoro fechou as persianas azuis
da sua casa não longe da acrópole

ninguém sabe bem explicar
como o amor não floresce
diante das janelas fechadas

pensei por fim que as coisas amadas
têm uma vagarosa geografia que pede paciência
a recusa da autodestruição um cuidado sem fim
que quando aceleram são elas as peças
que mais exigem de mim uma habilidade para morrer

e contudo quando eu não estiver aqui
queria que te lembrasses do quanto amei estas ruas
e queria que a alegria do meu amor

passasse até para lá de todas as ausências
estas casas foram construídas
com toda a pedra que se pode encontrar

6.

alguém escreve na parede
uma pergunta
acima da mesa onde estás sentado

qual a parte menos atraente do teu corpo?
e algum engraçadinho deve ter acrescentado
para o riso idiota de quem viesse mais tarde

é o teu cérebro

e a taberna tem um nome nostálgico
chama-se
como antigamente

e eu ainda estou a rir
quando os meus olhos
caem sobre os teus
e descem pela linha do ombro
num movimento
que vem desde o passado
até à eletricidade que faz
os minutos avançarem
no meu relógio de pulso
recordando-me de que os pormenores
dos corpos das pessoas que amei
ao longo da vida

se imprimem atrás dos olhos
reaparecem inesperadamente às vezes
quando os fecho
como pormenores de casas
de cidades em que vivi
e as mais vivas cores
das suas fachadas

lembro-me de que
hécuba em as troianas de eurípides
se recorda do hábito de heitor
de apoiar o queixo no escudo
e da mancha do seu suor
ter ficado talvez
do lado de dentro
entre o couro e o metal

eu por outro lado
aprendi contigo
a coisa menos dramática de todas
que é tudo o que sei
sobre como regressar
a cidades não muito distantes do mar
com as suas praças centrais
densamente povoadas
quando as luzes ao longe
se confundem com o sal que reluz
nos oceanos
e descubro que sempre
que me emprestas o teu casaco
paro de morrer

*Poemas do livro “Adriano”, Editora 34, 2022