Miguel Sanches Neto nasceu em Bela Vista do Paraíso, Paraná, a 25 de julho de 1965. Poeta, escritor, professor universitário, e crítico literário, foi colunista da Gazeta do Povo, de Curitiba, entre 1993 e 2012, onde publicava artigos sobre literatura em uma coluna semanal. Também contribuiu para outros veículos de comunicação como: O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, República, Bravo!, Poesia Sempre e D`Pontaponta. Publicou mais de 600 artigos de crítica literária e mais de 50 livros no Brasil e no exterior. Atualmente é reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
NATUREZA-MORTA
No começo a vida,
qual maçã só viço,
era mordida com gula e cobiça.
No final havia sempre
uma promessa de reinício
entranhadas nas sementes.
Agora, quando tudo se foi,
infância, campos floridos, amores,
descascamos com lágrima no rosto
esta ácida cebola.
No final, um pequeno oco.
MATINAL
O maníaco da madrugada
lê enquanto cantam os galos.
Não há no mundo mais nada,
apenas este homem acordado.
A cidade toda ainda sonha,
mas persiste este homem
que, em silêncio, doma
o espanto da noite insone.
Quando a mulher se levantar
o outro mundo já não existirá.
O homem terá feito a barba
em meio a tarefas que não tardam.
É a ele que as madrugadas amam,
por ele desfazem-se as distâncias
e o tempo volúvel se dissolve
e ele não se sabe velho ou criança.
RECLUSÃO
Entediada com o meu silêncio
e a submissão de suas companheiras
que vivem reclusas aqui dentro,
rebelou-se a palavra estrela.
Saiu da mais funda cisterna
que há em minha carcaça
e escorreu pelo tubo da caneta,
borrando o branco da página.
Não fui eu que a escrevi,
não era minha a caligrafia.
Suas letras possuíam um luzir
que nada tinha de tinta.
A palavra estrela era algo vivo,
tão vivo que fugiu da página
sem deixar nenhum vestígio.
Refugiou-se em um prédio
um pouco após o crepúsculo,
depois foi a vista em uma serra
brilhando com todo o luxo,
e uma criança de apartamento
jura que ela escalou o firmamento.
Só sei que antes do alvorecer
voltou manchada de luz e vento
e se recolheu sem nada dizer
ao meu mais bruto silêncio.
MASSA DE DETRITOS
Assim como as embalagens plásticas
que depois de usadas colocamos no lixo
ou ainda como amassadas latas
que nada guardam de alucinante líquido,
do amor em cuja fonte nos saciamos
e do desejo que alimentou enganos
restou somente uma massa de detritos
que ao rio da memória seguirá poluindo.
*Poemas do livro “Venho de Um País Obscuro”, Editora Bertrand Brasil, 2004.