Xosé Luís Méndez Ferrín, também conhecido como X. L. Méndez Ferrín, nasceu em Ourense, Espanha, a 7 de Agosto de 1938. Poeta, escritor e político, é Doutor Honoris Causa pela Universidade de Vigo e Doutor em Filologia. Considerado um dos mais representativos nomes da literatura galega contemporânea, devido à sua atividade política foi processado em três ocasiões – a última, quando já estavam em vigor as instituições democráticas espanholas-, sofrendo torturas no cárcere. Ferrín foi membro da Real Academia Galega até que renunciou em fevereiro de 2013 depois de ser acusado de nepotismo. Galardoado com vários prêmios, como o Prêmio da Crítica Espanhola, Prêmio da Crítica da Galiza, o Prêmio Eixo Atlântico, e o primeiro Premio Nacional da Cultura Galega de Literatura. Em 1999 foi proposto ao Prêmio Nobel de Literatura, pela Associação de Escritores em Língua Galega. Atualmente é professor de literatura no Instituto Santa Irene de Vigo. Também é colunista no jornal Faro de Vigo e dirige a revista de pensamento crítico A Trabe de Ouro.

*
Poderia chamar agora
por Kerouac
porque entre os dois há um rio
de tristíssimo outono
pois
prefiro contemplar
as criaturas preciosas
– já sabes: pérolas, ouro,
quando não cristalino e mármore –
de bembo
e miro atentamente
o mais estéril
– gema, livro, lâmpada –
que denote as próprias
bases ou pés de barro
do meu verbo
e agoure friamente
a coisa a coisa
a coisa formal
e inerte
na qual me vou erguendo cuidadosa e artificiosa
mente
poderiam chamar agora
por Kerouac
ou mocidade perdida
porque entre os dois escoa o rio
da morte.

*
Saudemos a morte;
na palma da mão não seguramos onixes.
Chamaremos:
livro de silêncio,
pórtico terminal da escravidão,
escritura feliz da opacidade,
luz que desata em nome da alegria.
Saudemos a morte;
não vamos dar espaço para Bach ou Joplin.
Contemplemos
a frieza do seu  rosto à nossa beira.

*
Esta é a folha
que na folhagem da tristeza misturada
da Terra de Bea proclama em bananas da triste estrada,
em ouros opulentos das vagens,
em carvalhos cor de cobre argila trêmula,
o outono, o outono lento como uma cobra
de luz peneirada,
pousando o outono em cada um dos meus dedos,
em cada um dos meus dedos como as folhas
mortas e friamente capazes.

Esta é a sociedade
na qual descanso a testa atada numa colcha de edredom
bordada com tufos feitos do amarelo das maçãs descoloridas.
que na Terra de Bea aguardam as ruínas
bem abertas estando os celeiros e os celeiros
escancarados sob um lindo sol elíptico.

Este é o esplendor
no qual posso me banhar como um Dionísio
e reproduzir a valente destruição das folhas,
na Terra de Bea,
em cada fadiga do meu passado antigo
através das sombras de terror da alegria.

*Poemas do livro “Com pólvoras e magnólias”, Edições Xerais “Os libros do XXV Aniversario: 2004.
Tradução de Igor Calazans para o Recanto do Poeta.