Mohammed El-Kurd, nascido em 15 de maio de 1998 em Jerusalém Oriental, Cisjordânia, é escritor, poeta, artista visual e estilista. Tornou-se uma das vozes palestinas mais reconhecidas internacionalmente por sua resistência contra a ocupação israelense. Em 2021, mudou-se para Nova York para cursar o ensino superior, mas retornou a Jerusalém durante a crise daquele ano. Ao lado de sua irmã, Muna El-Kurd, liderou campanhas que ampliaram a conscientização global sobre as políticas israelenses, conquistando centenas de milhares de seguidores no Twitter e milhões no Instagram. Nesse mesmo ano, Mohammed e Muna foram incluídos na lista das “100 pessoas mais influentes do mundo” da revista TIME.
EM JERUSALÉM
“Bombas ou rojões!”
Loren perguntava amiúde
com um fresco e preocupado ar americano.
E eu respondia: “Um casamento, deve ser”
ou “Ninguém se casa em dezembro”.
Após consumir Jerusalém
e ser por Jerusalém consumida:
“Bombas ou rojões?”
pergunta Loren. E um tornado risonho
nos escapa as bocas
atingido por nosso torpor
de modos fatais.
Minha mãe sempre dizia:
“Os desastres mais trágicos
são os que provocam o riso”.
MENINAS NUM CAMPO DE REFUGIADOS
Um soldado
. te dá haxixe
. e algemas.
Van
. é o esquife da tinha espinha.
Estrada
. te leva aonde levar.
Tantas prisões na jornada,
. raras pombas no destino.
Tu és Damasco e
és o portão.
Nascida à beira de um alento.
. À beira de um finamento,
a dor mordisca tua mãe.
Tua garganta é um minarete.
O leito hospitalar – um tapete de oração;
allahu akbar,
tua família anuncia
. tua varonia
. tua ruína.
O DIA É COMO MANTEIGA
Aqui se vendem crianças.
Há motivos para que os pais
raciocinem com ganância
e as mães defiram esse desfecho.
Pouco importa o preço
contanto que se vendam as crianças.
Pouco importa o que levam
no peito,
seja pesar ou perdição,
ou sóis semelhantes ao fósforo branco.
Menino vazio esta manhã.
Sua mãe o passou pelas brechas
de uma máquina de vendas.
Homens gulosos por doces enfiaram
notas de dólares na boca dele.
Ela umedece o fermento
para alimentar bicos abertos.
Aqui fome é greve, grave
alvoroço revolto.
Deus levanta de seu banco de bar
para cuidar de fiéis embriagados.
Ele agora está na TV
atrás de papos e paletós.
Anuncia uma superação,
soltando da palma das mãos
borboletas,
que entoam a derradeira canção.
Observo tudo do sofá,
tricotando para mim
um laço de forca.
TRÊS MULHERES
Atlanta – mulher,
cabelos pretos e pele negra,
vai ao pronto-socorro sob a ponte
onde lhe quebram, até abrir, as ancas
homens que são às vezes seus tios,
. às vezes seus amantes,
. às vezes sua escolha.
Um levante se desdobra na garganta:
poesia feita de palavrões e tambores.
Há um planeta novo no seu ventre
que parece engolir melancias inteiras.
Os homens, de juntas largas e extensas,
. dizem-lhe: Empurra.
Chorando e ninando uma calçada,
. ela expele uma estatística.
MATEMÁTICA
Minha terra natal cava túneis em si mesma
numa fuga ao exílio escolhido.
O sangue não se lava
não obstante as torneiras
não obstante a cor da lavagem.
RIR
Atlante meu ensinou que poemas não são madeira nem
tijolo. Poemas não erguem casas. Atlanta me ensinou
que as pessoas ainda aplaudem as balas que as perfu-
ram contanto que o ritmo esteja certo. Isso me ensi-
nou a olhar. Há muitas maneiras de olhar. A dúvida é
uma delas. Aprendi que o sucesso é matemático e no
pretérito perfeito. Sistemas são como serpentes. Es-
camas que reluzem. Aprendi a fazer de uma banheira
um colchão. Atlanta me ensinou a apanhar um trem, a
perder um trem, a ser um trem. Atlanta me ensinou a
adiar o pânico, comandar salas. Me ensinou a encher
meu crânio de pavões. A discutir de queixo erguido.
Me ensinou que um dólar é três shekels e meio. Que
dólares têm cheiro incrível. Rap feito por mulhe-
res é a forma mais elevada de poesia. Meninas bran-
cas são as mestras absolutas em surrupiar lojas, por
razões que Atlanta sabe. Sei que surrupiar lojas é cin-
za. Atlanta me mostrou uma carroça de porcos em
chamas pela primeira vez. Estou aprendendo a jogar
gasolina no discurso. Esta cidade casa seus mártires,
festeja quando regressam. Atlanta me ensinou que
“bom dia” de corredor não significa amizade. Jerusa-
lém me ensinou a ter garra. Atlanta me ensinou outro
tipo. Agora posso levar o funeral ao púlpito e rir. Mi-
nha vó me ensinou: se a gente não ri, a gente chora.
Atlante sabia disso.
BUSH
Sapato na cabeça.
Nunca tive tanto
orgulho.
Bush sapato na cabeça.
Minha mãe estava na cozinha
Saddam numa forca,
belo. Desculpas
envoltas em lã.
Quem me dera uma cobra me devorasse.
Quem me dera a terra se partisse e me devorasse.
Bush torres desgarradas
Não creio em
conversa nem reconciliação
nem corvos escavando meus olhos.
Meu pai era um milhão de formiga-de-fogo.
Milionários distribuindo caridade
como se fosse caridade quando
cada tostão é em vão.
Espera-se que a gente agradeça.
Eles reconhecem
nosso sangue em suas mãos.
Quem me dera uma cobra me devorasse.
Quem me dera a terra se partisse e me devorasse.
Bush senta ao meu lado no trem.
Um veterano da guerra do Iraque cita seu medo de rojões.
Eles acham que só eles têm
estresse pós-traumático. Somos letrados
em descascar nossas peles para dormir.
. Vivemos como detritos ambulantes,
devoramos cobras, devoramos farmácias inteiras,
enrolamos nossa espinha dorsal nos dedos
de caixas de banco, enquanto Bush está numa Jo-Ann qualquer
escolhendo o perfeito tom de azul.
*Poemas do livro “Rifqa”, Editora Tabla, 2026.
Tradução de Gabriel Semerene