Gabriel Mwene Okoundji nasceu na República do Congo, em 1962. Poeta e escritor, é reconhecido como uma das grandes vozes da poesia africana de língua francesa nas últimas décadas. Sua obra é caracterizada por uma busca incessante pelas origens naturais e míticas, que dialoga com a terra original e nos recorda a poesia de Léopold Senghor. Radicado na França, obteve premiações importantes, entre elas, o Prix de Poésie Contemporaine PoésYvelines (2008), o Grand Prix Littéraire d’Afrique Noir (2010), o Prêmio Léopold Sédar Senghor de Poesia do Cenáculo Europeu Francófono (2014) e o Prêmio Internacional de Poesia Benjamin Fondane (2016).

Pesares

Seria difícil dizer a palavra exata
o único jeito de não ficar louco
é não pensar nisso.

Pesares
de uma esperança quebrada de um desejo confesso
Pesares
de um dia perdido
que penduramos no coração
símbolo de uma desglória
sinal de desvitória de um porvir previsto

Pesares
de alvorada a alvorada dia após noite
até o tempo da memória da lembrança.

Palavra

Essa ruga interminável que se atola no recinto do teu rosto
vai cantar até quando o estranho do destino do olhar do homem?

A verdade da palavra está na soleira da fala mantida mas qual fala?
por qual termo nomeado antes de ter sido?
no fim de qual diálogo?
toda interrogação tem paixão por uma resposta

Chegou a hora de falar à sombra que o alhures
.                        – irmão gêmeo do horizonte –
em parte alguma se revela o olhar.

Moradia

Um lugar
entre duas e duas terra
mil desvios
a alvorada se exila no seio da sua própria luz
entre duas e duas lendas
face à ruminação de uma alma atingida pela errância
face à vertigem da medida exata do espaço
no fim de um passado enterrado em paciência
eu moro.

Sopro

Nem eu sem o eu do sopro do exílio
nem denominador das colheitas de chuvas
nem emblemas do afeto, nem visionário da lua
nem chama lunar do canto banto
nem curva de uma sede no intervalo do nada
nem mão estendida à graça da sonolência
nem astúcia, nem fúria, nem recuo
nem memória altiva das calçadas sem alma
nem cor do esquecimento dos quatrocentos anos de areia
nem riso do ocaso no oeste das esperanças
nem turbilhão de vento-sul
nem amante de uma língua em maré alta
eu
persigo os entornos do verbo
na terra da imobilidade das almas.

Trajeto

Você só tem uma história

A tua história é incomensurável

Ela se estende até perder de espanto
nas margens da paixão

A tua história é preciosa

E eu exijo de você
um silêncio
Não esse silêncio dos estados normais
à espreita do menor sussurro

Exijo de você
o silêncio de um remanso
ou de um lago
ou de uma lágrima

Não esse silêncio fugidio
que oxida os pactos
direto nas fraldas do idioma

Eu queria te guiar
a passinhos de ferido
pela voz do silêncio
ao segredo do sílex.

*Poemas do livro “Como uma sede de ser homem, ainda”, Ars et Vita, 2025.
Tradução de Guilherme Gontijo Flores