Walter Campos de Carvalho nasceu em Uberaba, Minas Gerais, em 1º de novembro de 1916. Poeta, escritor e advogado, aposentou-se como Procurador do Estado de São Paulo. Atuou também na imprensa, colaborando com O Pasquim e trabalhando no jornal O Estado de S. Paulo entre 1968 e 1978.

Sua obra literária se destaca pelo viés surrealista e iconoclasta. Explorou o insólito e o macabro, tendo como ponto de partida o tema da loucura, que permeia sua poesia e prosa.

Campos de Carvalho faleceu em São Paulo, em 10 de abril de 1998.

Mensagem

Há que haver os loucos,
Os alucinados, os videntes,
Cujo lúcido espírito não repouse como um cadáver
Sobre este mundo visível e as verdades consagradas,
E cuja voz profunda exprima o eco e as flutuações
Das água eternas e inaudíveis
Que são o destino de todos os barcos.

Há que haver os que despertam à meia-noite,
Angustiados,
E põem-se a gritar e a clamar dentro das trevas,
Como uns loucos — não o sendo —
E exprimem numa linguagem que não é a sua,
Nem a dos seus pais,
Nem a de qualquer outro povo da terra,
Estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas,
E depois serenam como o mar após a tempestade
E não sabem mais recordar aquilo que disseram,
E choram quando lhes mostram seus puros êxtases,
E sentem-se miseráveis despertados.

Há que haver os que deixam que suas finas mãos de marfim,
Pálidas, sinuosas, quase fluídas,
Se arrastem como profetas pelo deserto das longas pautas
E inconscientemente, totalmente a cegas,
Gravem para a eternidade, com num frio rochedo,
Palavras de fogo e de sangue,
Ânsias, ódios, espantosos desesperos,
Para se admirarem depois, eles próprios, do que escreveram,
Como sonâmbulos que, de repente e sozinhos,
Despertassem vivos sobre o cume de inatingíveis montanhas
E não mais soubessem o caminho que os conduziu a tão altas
paragens,
Tão perto dos deuses.

Há que haver os que abandonam lar, pátria, amigos, cidades,
Velhos hábitos e confortos seculares,
E sem levara nada de seu,
Apenas sua consciência desarvorada e lúcida,
Põem-se a perseguir novas e estranhas verdades, como
[ hipnotizados,
E não repousam e dormem mais, em sua peregrinação,
Noite após noite, sol após sol,
Até que sintam a paz descer como um bálsamo sobre as sua chagas
E vejam mais nítido dentro da própria alma
E se reconheçam pela primeira vez em sua esplêndida nudez,
Como o amante à amante no momento supremo da posse.

Confiteor

Onde os meus anseios de ainda há pouco?
Onde a minha profunda humildade,
A nostalgia de meu passado distante e perdido,
Dos meus primeiros sonho e arroubos de infância,
De minha alegria imensa e pura, toda sem mácula,
De minha crença tão perfeita, inconsútil?
Onde?

Por que volto a me olhar com estes olhos frios,
Como a um criminoso,
E assim me acuso e firo eu mesmo, sempre,
Sem piedade,
Tentando em vão achar nos meus traços o sangue e o rastro
De todos os facínoras que me precederam um dia,
Como se busca uma furtiva imagem diante do espelho?
Por quê?

Se já não me pertenço,
E nem sei mais ao certo o que ainda penso e ainda desejo,
e sou tão estranho a mim como o é um sonâmbulo
Ou uma vaga sombra sobre um vago muro,
Que poderei então dizer aos homens e ofertar-lhes,
Numa preciosa dádiva, solene e única,
A que nem a poeira do tempo jamais possa poluir
Nem venha a sepultar um dia, como à Esfinge?

Que terei eu?

Rumores há, porém, que me previnem
Que nunca fui nem hei de ser mais o Poeta
Ou o Messias anunciado pelos antigos profetas,
Pois que também eu trago em mim, no fundo do meu ser,
A infausta semente do meu próprio cadáver,
Qual uma fina pérola que brilha e que envenena
E que seduz aos homens sem lhes dar nenhum proveito.
Ninguém o foi jamais, nem eu também o sou,
Esse divino ser por que ainda anseiam os que têm se de
Beleza:
Sou e serei apenas, como vós, um monstro.

Distância

Não falo a linguagem dos vivos
E o que os mortos falam não sei.
(De quem herdei?)

Se digo o que sinto e o que penso,
Quem me ouve ou se irrita ou se pasma.
(Sou um fantasma?)

Não sei que destino me envolve,
Jamais tive pátria ou família,
(Serei uma ilha?)

Por mais que me alegre, só penso
Que vivo a morre, pouco a pouco.
(Estarei louco?)

Meu grito, de noite ou de dia,
É um grito sem eco, perdido.
(Terei morrido?)

Só diante do espelho eu me encontro
Com um semelhante, um irmão.
(E Deus, então?)

*

Vomitei um pouco de latim e já me sinto melhor.
Saiu-me em for de um grito: Aristeu voltou-se
em sobressalto, a cabeça do chefe apontou na porta
de vidro — até as paredes se puseram lívidas.
Ainda bem que Diomira estava no lavatório.

Necessito urgentemente de umas férias,
definitivas como as que toma um morto:
ou gostaria ao menos que me enterrassem
por uns tempos, como aquele faquir
que bateu o recorde de jejum dentro de um esquife:
apenas um tubo de borracha para,
entre um tédio e outro, mandar o mundo à.

Também a hibernação artificial, numa câmara frigorífica,
me servia e sobretudo se me esquecessem lá dentro,
para só despertar daqui a cem ou duzentos anos,
com as novidades todas para contar e não ouvir.

Ainda vou escrever a uma sociedade científica
oferecendo-me em holocausto, os russos sei
que adorariam esses tipos de experiência,
se necessário me naturalizo russo, aprendo russo
para depois calar-me o tempo todo.

Assim como está sé que não é possível:
hoje foi o latim como poderia ter sido o grego
ou o sânscrito, amanhã será a trigonometria
ou a guerra do Peloponeso, o Manual de Civilidade
ou a Bíblia: e o pior sé que não me levam a sério
e ainda me repreendem.

Estas folhas de papel em branco, a obrigação
de data-las em cima e à direita, “Prezado senhor”,
e isso e mais aquilo,
e as vírgulas todas no lugar,
os dedos batendo em “allegro” de Mozart
e as palavras brotando indecorosas do outro lado:
não há fígado que resista e muito menos útero
— e ainda menos sum útero que sem sequer sai
nas radiografias, assim delicado e ub´quo,
cada dia grávido de uma coisa e de tantos
mistérios:
a maldição de ter nascido
André e Andréa, num tempo só
e girando na mesma órbita!