Mary O’Donnel nasceu em Monaghan, Irlanda do Norte, em 1954. Poeta, romancista, novelista e professora, atualmente é uma das autoras mais reconhecidas do país internacionalmente, sendo traduzida em diversas línguas.  O’Donnell lecionou escrita criativa na Universidade de Maynooth, foi mentora no programa de MFA em Escrita Criativa da Carlow University, Pittsburgh, durante onze anos, e também integrou o corpo docente do programa de verão da Universidade de Iowa no Trinity College, Dublin, por três anos. Ela também ensinou Poesia e Ficção durante três anos no Mestrado em Escrita Criativa da Universidade de Galway.

O futuro usa um chapéu amarelo

O passado, uma câmara do submundo,
Visitamos com frequência,
bêbados do rio
do esquecimento,
frontes atônitas enquanto lutamos
com corpos – doentes,
desalinhados –
que nos decepcionaram.

Aquele toque fácil,
aquele almíscar, um suspiro matinal
e cafeteira compartilhada,
escapam aos nossos sentidos.
Apagamos o futuro também,
contado com nossas vidas,
ignorante de amores mortos
acenando com mãos e chapéus
para chamar nossa atenção.
Se não lembrarmos do futuro –
rápido, como esfolar um coelho,
expondo o osso –
nunca olharemos para trás.
Ele nos cumprimenta sem esforço,
acenando com seu chapéu amarelo
ao cruzarmos uma ponte alta
vindo de direções opostas,
sorrindo –

A abóbora da garota da cozinha

A planta-mãe jaz murcha,
enrugada como um cordão umbilical após o nasci-
mento,
exaurida por esse broto robusto
que brilha descaradamente na névoa da manhã.

Ela estuda a única cabaça amarela,
carne que cede à sua unha encardida
mas não rompoe; som oco
quando bate com o nó do dedo,
o peso denso da vida.

No próximo ano, ela promete
fazer testes com as plantas:
uma na estufa, o resto
no jardim aberto, arriscando-se
no solo errante.

À noite, em seu estreito povoado,
ela sente apenas calor sólido.
Sua mente sonhadora já colhe sementes
soltas por uma faca santoku,
compõe sopas intensas
para a longa mesa no andar de cima.

Fantasma

Quero ser um fantasma na minha própria casa.
Você ainda pode viver aqui, ir e vir
no deslizar casual das tarefas diárias.
Apenas me deixe ser, feliz no meu assombramento
deste quarto, que nunca teve chave.

O metal secreto é o meu coração de escritora,
que precisa se esquivar dos sinais da carne,
tornando-se branco, depois mais pálido, menos que
cinza,
para que mal se perceba o quanto
preciso que essa casa se submeta a ser assombrada,

para inalar meu frio. Se eu não for vista
mas ainda assim sentida, por certo isso bastará.
Quero ser um fantasma na minha própria casa.
Não fale comigo. Não estenda mãos afetuosas
Na direção da minha coxa ou peito, só venha e vá.

Seja livre. Estou me assombrando livre
de portas abertas e passagens suaves,
daquele recanto iluminado por um fogo de inverno,
retirando-se por trás das sombras da manhã,
enquanto você habita a concha que deixo como legado.

Provisão Direta e os fantasmas
da antiga Escola Agrícola

Nos encontramos bem entre duas encruzilhadas:
escolares de cabelos escuros,
robustos em jaquetas e chapéus para a cidade
a cinco km de distância, as famílias alojadas
no antigo colégio agrícola.

Nesse lugar, espíritos vadiam – de jovens
que já trataram de ovelhas e gado em currais,
levantando-os para o mercado
com o clangor de baldes de comida, cheiros de desin-
fetante,
os raspar das pás
nos estábulos cheios de estrume.

Ouvi música do quintal no verão,
o baque de uma bola de futebol quando os meninos
jogam
pelas pátrias: Albânia, Moldávia,
Nigéria, talvez tentando esquecer
vozes meio sonhadas nos corredores noturnos,
para silenciar balidos e mugidos fantasmas ao amanhecer,
enquanto eles mesmos se tornam invisíveis.

*Poemas do livro “Onde estão os pássaros”, Editora Arte e Letra, 2023.
Tradução de Luci Collin