Jomar Morais Souto nasceu em 23 de agosto de 1935, em Santa Luzia do Sabugy, Paraíba. Poeta integrante do movimento literário paraibano conhecido como Geração 59, ingressou na Academia Paraibana de Letras em 23 de maio de 1998. Em 1961 ganhou o Prêmio Augusto dos Anjos com os poemas do livro “Pedra da Espera”.
GRATIFICA-SE A QUEM ENCONTRAR
Aquele poema, um dia, dado a incerta
dama ao tempo (nunca mais a vi).
Torceram-se os delírios, mas me aperta,
ainda, a antiga dor, aqui, ali…
Foi indo a vida (a terra mais deserta),
e, eu, sem vê-la mais, sei que escrevi.
Só cantos de saudade, como um alerta
à flor que se furtava ao colibri
Uns versos numa blusa… E eu tingi
de sangue meu, retinj0-os, agora.
Outros na agenda… Alguns estremecidos…
Ardentes poemas, nunca mais os li,
mas eu queria antes de ir-me embora,
frente aos meus olhos ter esses perdidos.
POEMA PARA QUANDO VOCÊ QUISER
Não venha
se sentir que não deve vir.
Mas, se acaso vier,
ao içar as velas do barco,
olhe firme para o vento na empanada
e para o horizonte onde o sol se perde
todas as tardes.
Porque, na verdade, o sol não se perde
quando está se perdendo.
Ele estará no mínimo
(quando se perde)
iluminando o outro lado da terra.
POEMA RAILWAY
Estaçãozinha, cinzenta,
de sineta, plataforma,
calçada à margem do trilho,
longo apito na madorna.
Toca de bilheteria,
um balcãozinho, um café.
Fardas de botões de ouro,
paletó, bota, boné…
– E a moça que vem, ali,
quem será mesmo que é?
Sua trilha, sem destino,
de mala na mão, a pé?…
– Para onde é que ela vai,
de onde será que vem?
Na Estaçãozinha cinzenta
um apito de trem.
O QUE NÃO FOI
Nisso
do entre os pássaros
que estão chegando, agora,
do fundo do quintal,
cantando,
e os mesmos pássaros,
ontem, calados,
dentro da tarde,
no fio do telefone,
haverá um anjo meditando, amanhã,
e desfiladeiros,
luas esbatendo-se
no rosto de folhas transfiguradas,
nuvens
e tempo.
Nós é que choramos
por não termos cantado
juntos.
*Poemas do livro “Aliados Poemas”, Bom Texto Editora, 2009