Ana Estaregui, nascida em 1987 em Sorocaba (SP), é poeta e artista. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e graduada em Artes Visuais pela FAAP, vive na capital paulista desde 2005. Publicou os livros Chá de jasmim (Editora Patuá, 2014) e Coração de boi (Editora 7Letras, 2016), ambos selecionados pelo edital ProAC. Em 2017, foi finalista do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, concedido pela Biblioteca Nacional na categoria Poesia. No ano seguinte, conquistou o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura com o original de Dança para cavalos. Seu título mais recente é Fazer círculos com mãos de ave (Editora 34). Além da produção literária, ministra cursos livres de criação em arte e literatura e atua como consultora no projeto Roda de Leitura do Itaú Cultural.

6.
com a mão mais mansa
aquela com que se conduz alguém
se oferecem sementes se acaricia um cão
também se ateia o fogo –

8.
o coração assopra coisas indecifráveis
dá a ver aquilo que vê
uma batida por uma batida
um repouso por um repouso
sem os olhos ensina a pensar
como pensam os poemas
como pensam os bichos
na mudez não há o que desvendar
saber o mistério é repetir o mistério
a poesia escreve quando escreve

20.
somos feitos de tudo o que vemos
cavalos deuses sorvetes uma mesa
tudo se decalca – a guerra e os lírios
tudo se mistura nas incontáveis casas sobre a casa

são como os aromas num mercado
azeites embutidos flores especiarias
nada se distingue completamente

assim poderíamos nos perguntar
devorar é o ofício de um livro em branco?

no poema o pássaro não é um animal
no poema o animal não é um animal
mas uma outra coisa
para existir o poema precisa antes se tornar
um não poema

fazer o que fazem os dedos de sedna quando caem na água
transformando-se em focas e peixes
mãos que se tornam baleias

24.
escrevo suas palavras sobre as minhas
como se pudesse de algum modo
possuir o seu corpo
como se estando aqui e agora
palavra sobre palavra
pudesse produzir uma fusão – uma telepatia
como se ao pronunciar as mesmas palavras
espadana d’água
olmos
glicínia
pudesse fazer o poema germinar sobre a paisagem
terra sobre terra jardim sobre letra
como plantas que se fazem a partir de mudas
livros a partir de livros
e quem sabe possa ser como naquele dia
em que ouvimos pela primeira vez
o canto de um uirapuru
e na sua voz uma árvore dizia
o meu nome é labirinto

68.
são os poemas que procuram as pessoas
e não o contrário

às vezes a escrita precisa de muitas mãos
para que as imagens possam se formar

é um dna que se decodifica
aos poucos, aos pedaços, em diferentes lugares

um texto em frações de uma língua antiga
trapos que se ligam no vazio

os fragmentos se dão a ver como miragens
– que surgem por vislumbre –
o poema está sob o poema

95.
alimento o fogo com pequenos galhos
ele responde brilhando
cada vez mais
conversamos a partir da troca
um ramo por uma faísca
uma lasca uma fagulha
na sua língua ele diz
formas são poderes
enquanto sublinha o escuro
com traços luminosos

96.
agora pode me chamar pelo nome: falcão
agora pode me chamar de breu coisa escura planície
inventaremos outros jeitos de falar
como falam os que voam: por desenhos no ar

somos o tempo somos os números que se repetem
os fios que também são o rio, um movimento
uma vibração idêntica à arquitetura
na qual não há distância entre a casa e o corpo
a flecha e o destino

já é hora – agora podemos beber
o vinho libera o vapor e a lanugem
na casca e dentição – cantamos entre os deuses
escrevemos o falcão, somos o falcão

*Poemas do livro “Fazer círculos com mãos de ave”, Editora 34, 2025.