José Lontra Fagundes Filho, mais conhecido como Juca Filho, nasceu no Rio de Janeiro (RJ), a 16 de junho de 1956.  Poeta, músico, compositor, cantor, roteirista, fotógrafo e professor de música, iniciou sua carreira artística em 1976, como um dos integrantes do conjunto Cantares, ao lado de Zé Renato, Marcos Ariel e Antonio SantAnna. Em 1980, iniciou sua carreira solo, gravando “Juca Filho & amigos músicos”. É parceiro de Mario Adnet, Flávio Venturini, Mauricio Maestro e Vinícius Cantuária, entre outros, e teve músicas incluídas na trilha sonora da novela “Roque Santeiro”. Entre seus intérpretes, destacam-se Claudio Nucci, Sivuca, Nana Caymmi, Zizi Possi, Fafá de Belém, Joyce, Biafra  e os grupos Boca Livre, Invoquei o Vocal e Três é Demais. Desde 1994 trabalha como autor e roteirista na TV Globo, sendo responsável por textos dos programas “Casseta e Planeta”, “Os Trapalhões” e “Sai de baixo”. Publicou, com o grupo de redatores formado por César Cardoso, Emanuel Jacobina, Cláudia Souto e Mauro Wilson, os livros “Confusões de aborrecente”, “Garotos são demais, garotas são de menos/Garotas são demais, garotos são de menos”, “Como educar seus pais” e “Zoando na América”. “Mecânica Sentimental”, lançado em 2024, é o seu primeiro livro de poemas.

torto.

ouço a voz interior
corto a cidade gris
caipira na chuva de sol
não vou triste nem feliz
um rei feito Maná Garrincha
torto na linha do asfalto
não remato nem desato,
passo perto mas não chego
entre o tropeço e o salto
vivo o desprezo e o apego
choro dentro dessa bola
meu desespero é meu sossego.

órfão.

acordo suado em plena madrugada,
escuto no silêncio o som da valsa negra,
por entre o véu difuso onde rasteja a naja
do mau pressentimento e do desassossego,
acordo, é madrugada, e longe canta
o vento que levou meu pai em sua vela branca,
e dói em algum lugar a dor que não se cala,
aquela que lacera, não tem cura e nada sara,
a vida mói os grãos do sonho, é madrugada,
na testa pulsa, gélido, o suor da lua ingrata.

rútila.

teu corpo quente irá pulsar em mim feito promessa
fervendo rente à alma com fogueiras brandas
fundindo sexo e coração onde a ilusão desanda
e a dor é fugidia ante o deleite da poesia.

o toque da tua pele feita em luz macia
a seda dos teus olhos quando acaricia
a rútila canção que faz de mim poeta
ao mesmo tempo em que vicia, me liberta.

teu corpo quente acolherá minha alma acesa
vibrando no momento feito eternidade
e o amor virá sagrar nosso arrebatamento
na brasa da paixão que à flor da pele arde.

atroz.

choro a alegria
dos que nada têm
sombras vão embora com o domingo
e num momento
zune um vento desgarrado
e a solidão em cacos
quebra-se a espalhar por dentro
sobre os silêncio
e os poemas no ar
tristezas e dores pequenas
mas capazes de matar
sem culpa, remorso nem pena.

sabiás tomam banho de tarde
na água da laje
coalhada de brotos verdes
e o sol que emoldura o quintal
prisma o arco na parede
mas ao redor do manipura,
atroz a melancolia perdura
gelando com fria luz
a alma que se tortura.

*Poemas do livro “Mecânica Sentimental”, Editora Ramalhete, 2024.