Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, a 4 de fevereiro de 1961. Poeta, escritor e jornalista, ganhou o Troféu APCA, oferecido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, ambos em 2001, com o romance “Eles eram muitos cavalos”. Porém, iniciou sua trajetória literária com poesia, publicando “O homem que tece”, em 1979. Essa obra apresenta poemas sociais sobre a vida do operariado brasileiro. Depois desse livro, escreveu mais quatro livros do gênero: “Paráguas verdes” – São Paulo: Ateliê Acaia, 2011; “O amor encontrado” – São Paulo – Edição não comercial, 2013 e “Manhãs de sabre” – São Paulo: Faria e Silva, 2021.
*
E há aqueles dias em que, sedento,
a lucidez recobro e os olhos a arquitetura
dos velhos canos de chumbo percorrem.
A violência dos dias encachoeira-se
aos nossos pés e o calcanhar atinge.
Quantos dias, ainda, quantos dias,
socorrerão aos leões nossos nomes?
Sob o assoalho há um deus e as galinhas
bicam-no e os cães rechaçam-no.

*
Eis os pés, eis a grama
do Jardim da Discórdia.
Quem, nossos temores cavalga?
Quem, nosso pesadelo orquestra?

Escutai, homens, a mensagem:
nos escuros becos da cidade
prepara-se a sedição dos mitos.

Além, Cronos, voraz, devora os dias.

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Dizemo-nos: num ermo o passado
abandonei, já não me alcança.
No entanto, amiga, o ar fareja
e nos persegue. Humilde à porta
ladra, a cauda abana, faz festas.
E os dentes nos crava nos calcanhares.

*
Envelhecemos, e teus projetos
aos sonhos retornam.
Aquela casa de campo,
quantos iriam visitá-la?
O filho inconcebido,
como mesmo irias nomeá-lo?
A viagem à Europa,
.     este país, que naquele.

Envelhecemos, no entanto,
e tudo à volta rui.
A cidade irreal,
envolta em névoa, tua.

Envelhecemos, e teus sonhos
em sonhos permanecem.

*
Pacientemente despetalas
.                              o sorriso
.              dente após dente,
.       como se a tecer rosas
num pano de prato, como
.     se a estabelecer regras
.ao jogo recém-inventado,
.     como se a traçar retas
imaginárias sob as nuvens.

*
Da quinta idade somos: os homens de ferro-
aqueles cujos deuses nos deserdaram, aqueles
cujo amor na dura carcaça não penetra. Somos
os inválidos, os que sem dentes nascem e
sem dentes perecem. Somos a derrocada,
a noiva para sempre aguardada: o fundo
do fundo do abismo. Homens de ferro, sim,
aquelas cujas juntas a ferrugem já devora.

*
À mesa tomam assento os eleitos,
alvas toalhas, asseada comida.
Bebem, conversam, enfastiam-se.
Ao relento, observamos, além
da janela. Sendas inúmeras
de mãos dadas percorremos,
vasta solidão. Às nossas costas,
quanta ruína! Putrefazem-se
os mortos sob os monturos,
faz fortuna a peste. E a nós
nos foi dado os sinais aguardar.

*
Na rua das pedras afloradas
as labaredas que da lareira
fulgem apascentam o indócil
rebanho noturno. Há alguém,
ou algo, confabulamos, por
detrás da porta cerrada
nos aguardando, na mão
esquerda um ábaco, uma adaga
na mão direita. Num imenso livro
confere a incompleta hagiografia.
A névoa orvalha os nomes sussurrados.
No abismo da hora a ingente
infância a espinha percorre-nos.

*Poemas do livro “As Máscaras Singulares”, Boitempo Editorial, 2002.