Julia Bicalho Mendes nasceu no Rio de Janeiro, a 2 de fevereiro de 1989. É poeta editora, performer, tradutora e designer. Publicou notas espalhadas por revistas, murais, antologias e quatro livros: para um corpo preso no guindaste (2012); desde quando deserto (2014); azul caixão (2019) e uma ilha não é um fóssil (2025). A qualquer coisa que me dedique, a arte tem sido, para mim, uma entidade de busca, assim como o [auto]cuidado e a [auto]investigação se tornaram primícias fundamentais do reagente poético.

 

NÃO SOU UM CORPO

ou saco de pele
arrebentado sob a chuva
não sou nem o pobre
guindaste
esperando dependurar
a própria carne
não sou o rosto
da morte
nem a ideia
– da fome –
permaneço enfiada em
poças miúdas
entre o borrão brutalizado
e a marcha
abscissa da palavra

E EU QUE

.                   sempre fui fluida
passei
a ser estática
e disso
passei a ser flácida
dei-me de parte em parte
bruta
até que deixei que comessem
meus ovários
e do riste
já não restou nada
uma coisa lânguida
com corpulência apática
passeia sobre mim

CADA PALAVRA É UM ABSCESSO

e toda poesia é um pulmão

verter-se sobre um poema
é relembrar-se

toda palavra é uma ocupação

promover uma palavra é eleger um corpo

toda palavra pode ser um aborto

CIRCUNVISÕES

e uma moldura
que sai da tela
pelos espasmos translúcidos
por dentro de uma equação
impossível de pertencer ao tempo
– corro –
– existo quando desejo –
e duvido de mim
no desespero exato
de (querer) estar

*Poemas do livro “Azul Caixão”, Editora Primata, 2019.