Léon-Gontran Damas nasceu em Caiena, na Guiana Francesa, em 28 de março de 1912. Poeta, escritor e também político, destacou-se como um dos fundadores, ao lado de Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, do movimento literário conhecido como Negritude, em 1940. Essa corrente buscava afirmar e valorizar a cultura negra frente às opressões impostas pela colonização francesa.
Em 1937, publicou Pigments, sua primeira coletânea de poemas, prefaciada por André Gide. A obra expressa, com intensidade e revolta, sua crítica à educação crioula, que ele percebia como um processo de aculturação forçada. Entre os temas recorrentes de sua produção está a denúncia da vergonha ligada à assimilação cultural.
Damas faleceu em 22 de janeiro de 1978, em Washington, D.C., nos Estados Unidos.
OLHAR
Quando mais tarde
quando mais tarde os meus olhos
os meus olhos apertarem
Quando mais tarde
quando mais tarde eu tiver
falsos olhos de Chinês
Quando mais tarde
quando mais tarde
tudo me tiver abandonado
tudo me tiver abandonado até a teoria
até a teoria decair
Quando mais tarde
mais tarde
chegar o declínio
chegar o declínio do bastão
que sustenta os corpos envelhecidos
Alguém me comprará
me comprará talvez
flores
ou qualquer coisa
para que no bar da esquina
para que no bar da esquina
eu vá
reavivar a lareira
com um grande copo de vinho tinto
HÁ NOITES
Há noites sem nome
há noites sem lua
em que até à asfixia
viscosa
me toma
o acre odor do sangue
jorrando
de cada trompete abafado
Noites sem nome
noites sem lua
a dor que em mim habita
me oprime
a dor que em mim habita
me sufoca
Noites sem nome
noites sem lua
em que desejaria
poder não mais duvidar
tanto me obceca nauseado
o desejo de evasão
Sem nome
sem lua
sem lua
sem nome
noites sem lua
sem nome sem nome
em que o desgosto se ancora em mim
tão fundo como um belo punhal malês.
POSIÇÃO
Até os dias
tomaram a forma
de máscaras africanas
indiferentes
a qualquer profanação
de cal virgem
que um piano
incensa
repetindo o refrão
do luar com suspiros
qualquer formato
nas moitas
gôndolas
et cetera
QUEM PODERIA DIZER
Quem poderia dizer
se não for nado-morto
o outro eu mesmo
Quem poderia dizer
que neste dia aniversário
eu tivesse celebrando a ausência
de ti meu duplo
quem poderia dizer
se não fosses tu
outro eu mesmo
reincarnado meu duplo
nado-morto
Quem poderia dizer se não fosses tu a dizer
todo o arrependimento posto na escolha das palavras
acompanhando rosas vermelhas
para matar a solidão
cansada de ver a aurora
recusar a clarear o novo dia
DESEJO DE MENINO DOENTE
por ter sido
cedo demais desmamado do leite puro
da única ternura verdadeira
eu teria dado
toda uma vida de homem
para te sentir
te sentir perto
perto de mim
de mim só
só
sempre perto
de mim só
sempre bela
como sabes
sabes tão bem
ser sempre
depois de ter chorado
NÃO HÁ MAIS BELA HOMENAGEM
Não há mais bela homenagem
a todo esse passado
ao mesmo tempo simples
e composto
que a ternura
a infinda ternura
que pensa a ele sobreviver
*Poemas do livro “Pigmentos-Nevralgias”, Editora Papéis Selvagens, 2023.
Tradução de Lilian Pestre de Almeida