Inah Xavier Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Poeta, formou-se em Direito e é servidora pública. “Rio”, publicado em 2022, é o seu primeiro livro publicado.
In
Meio da tarde
Quinta-feira
Fora dos planos
É você
Imprevisível
Toca o telefone
Texto sem nome
Estou com fome
É você
Irresistível
Só por hoje
Por uma vida inteira
Por uma vez primeira
É você
Inesquecível
Sem tempo
Ingenuidade
A ingenuidade é um copo d’água com gelo.
Não, não é! Ela é o gelo que derrete n’água!
Ingênuo gelo, se achava pedra, indissolúvel.
Que nada, ele era água!
Pedras
Podem ser chutadas
Podem ser esculpidas
Podem se tornar estradas
Entulhos
Diamantes
Paralelepípedos
Ruínas
Cristais
Rochedos
Guarde bem o nosso segredo:
Eu, tão líquida, me putrifiquei.
E você, tão pedra, se derreteu.
A cerca
Há arames farpados por todos os lados.
Eu quero atravessar.
Arames farpados são apenas fios irritados
de lado a lado.
Dizem por ser: é arriscado!
Vale um arranhão?
Há girassóis do lado de lá.
Eu quero atravessar!
Há brisa do lado de lá.
Eu quero atravessar!
Há liberdade do lado de lá.
Eu vou atravessar!
Poesia
Ainda que este livro não existisse por censura.
Ainda que escrever estivesse proibido por direito.
Ainda que amar fosse escondido por tortura.
Sobreviveria ela: a poesia.
Eu, com ela, passeio de mãos dadas
pelas ruas da minha imaginação.
Eu, com ela, enfeito todos os espinhos
com as flores do jardim de uma constelação.
Eu, com ela, levito acima das lavas
de um vulcão em erupção.
Ainda que a janela do mundo se cegue.
Ainda que a humanidade se banhe de incompreensão.
Ainda que o presente da vida se negue.
Sobrevive ela: a poesia.
*Poemas do livro “Rio”, Editora Raiz, 2022.