Juan Guzmán Cruchaga nasceu em Santiago do Chile, em 27 de março de 1895. Poeta, jornalista, dramaturgo e diplomata, foi um dos grandes nomes da poesia chilena de sua geração. Foi repórter do El Diario Ilustrado, onde matinha uma relação “poético-comercial” com o poeta Jorge Hübner, escrevendo versos por encomendas. Como diplomata mudou-se para Hong Kong, Buenos Aires, Oruro, Arequipa, Bogotá, e Bahia, ficando amigo de muitos escritores brasileiros. Essas experiências estão registradas em seu livro póstumo “Recuerdos entreabiertos” (Entre Memórias Abertas ), compilado e publicado pela Biblioteca Nacional. Nos últimos anos de sua vida, ele publicou Canção e Outros Poemas (1950); Cinderela ou o Outro Lado dos Sonhos em 1952; e Sombra Alta em 1958. Em 1962, ele foi premiado com o Prêmio Nacional de Literatura . Em 1978, ele publicou seu último livro, Sede . O poeta morreu em Viña del Mar em 21 de julho de 1979.

CHUVA

Esta primeira chuva longe de ti, esta chuva,
cortina apagada e rangente de gaza,
umedece os azuis olhos de meus sonhos,
arrefece-lhe as mãos ou lhe molha as asas.

Vozes emparedadas no sonho mais fundo
perguntam às rosas, ao silêncio e à água
por ela e os rosais morrem de não vê-la
e a chuva suspira sem poder encontrá-la.

Esta primeira chuva, silenciosa. esta chuva
é um velo de sombra, de tempo e de distância.
Detrás dela gelam mais remotos os mortos
E se perdem vivos num bosque de ânsia.

A MEIA ÁGUA DO SONHO

A meia água do sonho e sem saída
para a superfície iluminada,
te levarei, já em calma – perseguida –
longe do pensamento e da mirada.

Não há de cingir-te luz descomedida,
nem há de tocar-me a espinha disfarçada,
nem flor de pranto, de fulgor vestida,
nem dano azul, nem afetiva espada.

Te levarei, dormida, na corrente
de meu sonho, e nele, serenamente,
te afastarás do sol e do ar amargo.

E sonho abaixo iremos companheira,
até a claridade da ribeira
onde repousa o mar do sonho largo.

ROSA DE CINZA

Onde perdi o que perdi e o que foi
perdido? Foi a alma que era minha
e em traje de mistério passou um dia
roçando-me à margem do olvido?

A que me dera o céu do sentido?
A que foi milagrosa companhia
e meu aroma ainda nostalgia
com o aroma fiel de seu vestido?

Cada momento de sua rosa escura,
que vive, quando vive, uma alvorada
e nunca de minha rosa se fez dono

porque perto de mim se transfigura
e é rosa de cinza iluminada
seu raio e sua cor de sono.

CANTAR

Houve sede como à minha,
sede que me deixa, ao saciar-se,
sede da sede que tinha?

LIÇÃO DE MORTE

Quando apagas a luz se vão as coisas
a seu pálido reino e o olvido
passa a mão azul pelo vencido
e o ferido e as murchadas rosas.

Andorinha gastas, mariposas
de treva apaziguam o sentido
e o que posso ser e que não hei sido
quase entrega suas linhas misteriosas.

Tudo se apaga ao fim. Meu pensamento
se vai longe de ti, de seu momento
feliz e te perder dentro da sorte.

e, ao despedir-se, um dia e outro dia,
de tanta coisa que era apenas minha,
segue aprendendo sua lição de morte.

INQUIETUDE

De onde vens, companheira minha,
e através de que tempo e que distância?
Acabas de chegar e estás de viagem.
vens do horizonte e não repousas.

Tens a ânsia em atitude de voo,
a cor da ausência no olhar
e nas pálpebras finas um medroso
e sensitivo sobressalto de asas.

ILHA

Longe de tudo, ao meio
de um marulho de sombra e lágrimas,
vive serena, erguida,
minha solidão de ilha ou de montanha.
Ao redor gira um anel de silêncio
e a protege um ato de distância.
Quando penso as nuvens a escurecem.
Quando sonho os pássaros a encantam.

*Poemas do livro “Juan Guzmá Cruchaga & Mauro Motta”, Academia Chilena de Lengua.
Tradução de Carlos Nejar.