Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, a 26 de março de 1953. Poeta, roteirista e jornalista, atuou em diversos jornais portugueses e moçambicanos. Em 1973 precisou refugiar-se na Suécia, até 1975.  De volta ao seu país, integrou o grupo fundador da Agência de Informação de Moçambique (AIM) sob a direção de Mia Couto. De 1977 a 1986 trabalha no Instituto Nacional de Cinema de Moçambique (INC) como autor de roteiros e de argumentos e como redator do jornal cinematográfico Kuxa Kanema. Em conjunto com Calane da Silva e Gulamo Khan, coordenou, entre 1984 e 1986, a Gazeta de Artes e Letras da revista Tempo. Reside em Portugal desde 1986, onde atualmente é coordenador redatorial da revista Lusografias

*
afasto as cortinas da tarde
porque te desejo inteira
no poema

e passas de capulana
teu corpo como as dunas
plantadas de pinheiros
rumorejando perto

a fúria das ondas

caindo brandas
no meu gesto.

SAGA PARA A ODE

é preciso a distância para chegar
onde o poema parte e se reparte no léxico verde do teu corpo
com cinzas noturnas e a madrugada nas mãos

é preciso o lugar ainda que doa
a emoção azul de sangrar por dentro
com o pensamento na galáxia erma do olhar

é preciso tudo como haver morte e flores
na raiz ao vento dos braços inteiros que se deram
por um nome uma ideia rubra nos lábios da liberdade

é preciso ver um musgo e alegria até as ilhargas
de tua imagem garça a deslizar
e sorver água na exuberância lustral dos teus seios

é preciso a insurreta solidão dalguns dias
quando o arquipélagos de ser dizem barco
e os teus passos espreitam
e tímidos percorrem o horizonte coral do silêncio

é preciso inventar-te porque existes
enquanto os deuses adormecem nas páginas dos livros
e o real é a infinita medida do canto
como acender as luzes ao meio-dia
e no mais sol das pétalas abertas
verter a seiva a singrar na terra

é preciso, meu amor, percorrer o tempo que nos deram
suspenso onde estamos nas pálpebras do verão

CANÇÃO

chegarei com as árvores
meu amor ao som do sangue
às catedrais do puro gesto
com o grito e as aves
marítimas dentro das sílabas
ao breve cume da espuma
mãos nas mãos chegarei

chegarei com as espadas
areia verde da planície
ao tutano meu amor da fome
com os frutos nos teus olhos
amante vento à espera
ao sexo nuclear do mundo
nervo a água chegarei

chegarei nas manhãs suadas
da voz meu amor liberta
à noturna onda do poema
com as aves dentro do grito
ou só marítimo eco
à raiz exígua dos cristais
morte a morte chegarei

chegarei de pé ao silêncio
que vaza meu amor nos rios
remo a canto deslumbrados
contigo ao princípio chegarei

*
a sombra dos teus olhos,
a testa clara, a linha que vai
das sobrancelhas à cartilagem
marfim, estática,
e onde nenhum vento já irriga
o tumultuar do sangue o rio
aberto em teus lábios;

a sombra dos teus olhos,
amêndoas perfiladas,
e o sorriso, colcha
rendilhada afagando o Tempo;

a sombra dos teus olhos,
Mãe,
no retrato.

*Poemas do livro “Poesia Africana de Língua Portuguesa”, Lacerda Editores, 2003.